É claro que, por ser filho de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, Pery Ribeiro deve ter muitas revelações a fazer em seu livro. Mas o próprio Herivelto já falou muito de sua vida e das brigas com Dalva, em depoimento aos jornalistas cariocas Natalício Norberto e Jonas Vieira. O resultado dessa longa conversa foi o livro ‘‘Herivelto Martins: Uma Escola de Samba’’, lançado em 1992 pela Editora Ensaio (Caixa Postal 64.090, Rio de Janeiro).
O livro contém várias fotos e nele estão relacionadas todas as músicas que Herivelto compôs ou cantou. Nele, o compositor descreve a cantora como ‘‘uma pessoa inexpressiva, impressionando apenas pela voz’’, no começo da carreira. O pai de Pery Ribeiro conta também, nesse livro de Natalício Norberto e Jonas Vieira, como ficou amigo do cineasta Orson Welles. ‘‘Não foram poucas as noites em que Welles varou a noite em nossa companhia - minha e do ator Grande Otelo - tomando cerveja preta’’, lembrou. O cineasta aprendeu algumas palavras em português e, como os dois brasileiros entendiam alguma coisa de inglês, eles acabavam se entendendo.
O idioma inglês, aliás, foi responsável por uma das inúmeras brigas entre Dalva e Herivelto. O compositor conta no livro que, uma vez, ao tentar conversar em inglês com um americano no Cassino da Urca, a cantora caprichou no linguajar. ‘‘I love you, mister, I love you’’, disse ela. (Eu te amo, senhor, eu te amo). Irritado, Herivelto chamou sua atenção: ‘‘Dalva, o pouco que sei de inglês eu falo com absoluta consciência. Sei o que estou falando. Já você não pode abrir a boca e dizer qualquer coisa que lhe vem à cabeça’’. Dalva revidou: ‘‘Ah, é? Quer dizer que só quem pode falar inglês é você?’’
Herivelto conta ainda que Dalva usava os amigos comuns para incompatibilizá-lo com a classe artística, e então o relacionamento foi ficando cada vez pior, até o rompimento definitivo. E aí começou o duelo musical. ‘‘Tudo acabado entre nós/já não há mais nada/tudo acabado entre nós/hoje de madrugada’’ , cantava Dalva (‘‘Tudo Acabado’’, de Jota Piedade e Oswaldo Martins). ‘‘Eu deixei o meu caminho certo/e a culpada foi ela/Transformava o lar na minha ausência/em qualquer coisa/abaixo da decência’’ , contra-atacava Herivelto. Mas Dalva não deixava por menos: ‘‘O peixe é pro fundo das redes/segredo é pra quatro paredes’’/(...) primeiro é preciso julgar/pra depois condenar...’.

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