História a ser passada a limpo
CRÍTICA
História a ser passada a limpo
Walfrido Soares de Oliveira Jr.
O grande sucesso de venda do livro A Viagem do Descobrimento de Eduardo Bueno (Editora Objetiva, 1998), representa uma surpresa no mercado editorial brasileiro, alçando uma obra histórica às primeiras posições de vendagem. O momento é propício, pois anuncia-se a data dos 500 anos de Brasil, anacronismo propagandeado pela mídia.
A viagem de Eduardo Bueno embarca nessa certeza, 500 anos de Brasil, encarando a chegada de Cabral como o nascimento da nação brasileira e a carta de Caminha como a certidão de nascimento. Podemos concordar com vários autores quando afirmam que a idéia de nação brasileira é uma construção pertencente ao século XIX, muito mais do que ao século XVI.
A obra é de fácil leitura e compreensão, encadeia com didatismo os acontecimentos e seus principais personagens. Tais observações não constituem um elogio per si. O didatismo é fruto do empobrecimento da trama histórica; os grandes personagens retiram de cena as pessoas de carne e osso, fossem simples marinheiros ou nobres; a facilidade da leitura é devido à superficialidade com que o tema é tratado. Diferente das Grandes Navegações, o livro de Bueno é oceano que pode ser percorrido a pé.
Aprofundando um pouco a crítica podemos começar pelo subtítulo: A verdadeira história da expedição de Cabral. Que pretensão! Após árduos trabalhos de pesquisa realizados por mentes tão brilhantes, fomos informados pelo autor que as outras pesquisas são falsas e, seus autores, são ignorantes e/ou mentirosos. Somente o texto de Eduardo Bueno contém a verdade?
Note-se que o autor não realiza pesquisa de fontes, isto é, em arquivos, e baseia as informações em documentação já publicada, análises sobre esta documentação e livros. O autor fez uma compilação de material amplamente conhecido e criticado, mas passa ao largo das críticas. Como então a versão dele é a verdadeira? Qual seu critério para discernir entre verdade e mentira? Qual seu conceito sobre História?
O conhecimento histórico, por ser um conhecimento construído a partir das experiências humanas pertencentes tanto aos homens do passado quanto ao historiador no presente, é seletivo, incompleto e provisório, não sendo possível ser verdadeiro, tal como o termo é empregado nas ciências exatas. Aliás, a pretensão do autor em ser verdadeiro contribuiu para que sua análise, ou falta dela, produzisse um conhecimento histórico típico do século XIX, ou seja, uma narrativa acrítica, que reproduz o documento como expressão de verdade (ela aqui novamente). Tal procedimento vem sendo abandonado pelos historiadores há, pelo menos, 70 anos. É nesse ponto que o autor perde a grande oportunidade de ser escritor.
Como não é historiador por profissão, seu texto não precisa passar pelo crivo da academia e, livre destas amarras, poderia tentar vôos mais ousados, viajar pelos vários caminhos do imaginário europeu. Abordar as dualidades entre moderno e medieval, ciência e misticismo, cultura de elite e cultura popular, cristianismo e islamismo, entre outras possibilidades. Mas o que observamos é um desfile de nomes, datas e fatos, no melhor estilo dos livros didáticos.
Ainda restariam algumas observações mais pontuais, como a utilização anacrônica de expressões, como lazer, que no período seria entendido como ócio, o pai dos pecados e, devido a isso, combatido pela Igreja. Outro ponto seria a utilização, para Portugal dos séculos XV e XVI, do conceito burguesia comercial. O comerciante luso mais característico é o fidalgo-mercador, isto é, uma construção histórica típica da cultura portuguesa, que integra em sua composição elementos da vida burguesa (trabalho, risco, ousadia) com elementos da vida nobiliária (esterilização do capital em terras e edificações, ostentação e obtenção de títulos de nobreza bem como a vida de corte), bem diferente do padrão burguês.
Uma questão fica sem resposta. Por que este sucesso? Uma explicação pode ser atribuída ao momento histórico, como já frisamos, os anacrônicos 500 anos. A busca por uma identidade nacional também nos empurra para o consumo de artigos que possam nos explicar, quem somos, e por que somos. Outra explicação poderia ser apontada. A pouca exigência do leitor médio, já que em terra de Paulo Coelho quem escreve mais fácil vende mais. O texto não nos remete a nenhuma dificuldade, nenhuma análise mais apurada a qual devamos pedir auxílio ao cérebro, somente informações de segunda mão, uma versão ampliada do livro didático que estudamos no primário.
Esta crítica cheira a dor-de-cotovelo. Por ser historiador estaria defendendo interesses corporativos, exigindo uma reserva de mercado. Somente historiadores tem o direito de escrever sobre História? De maneira alguma! A crítica feita aos historiadores é a de escrever para historiadores, sem o compromisso de atingir o público em geral. Tal como os vários livros que se dedicam a popularizar o conhecimento científico, o conhecimento histórico pode e deve ser popularizado sem, no entanto, perder a qualidade da informação e de escrita. A narração de uma história é parte integrante da mesma, não apenas um recurso estético.
Walfrido S. de Oliveira Jr. - Professor de história do Brasil da Universidade Tuiuti do Paraná. Professor do Colégio Integral. Mestrando em História na UFPR. E-mail: [email protected]





