HISTÓRIA - O tronco da memória
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terça-feira, 07 de março de 2006
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Elas já dominaram a cidade há muitos anos. Hoje, restam poucos exemplares no campus da Universidade Estadual de Londrina algumas ainda estão de pé, embora isso não signifique que estejam vivas. Nesse caso recebem a alcunha de ''condenadas'' e podem cair a qualquer momento, o que não diminui sua exuberância peculiar. Com seu porte feminino, as perobas são esguias e sempre se sobressãem às outras. É uma imagem bonita.
No dia 23 de janeiro de 2006 algo inusitado aconteceu. Descobriram parte do tronco de uma peroba debaixo do assoalho de uma casa de madeira, na esquina entre as ruas Espírito Santo e Brasil, que pesa cerca de uma tonelada e meia. A casa pertencia à família de Paulo Inagaki, que ainda hoje lembra do dia em que o pai o pioneiro José Kenji Inagaki e outros parentes serraram o toco da árvore com estimativa de ter pelo menos 200 anos para que ele pudesse ficar nivelado ao solo e a casa de madeira da família ser finalmente erguida.
A casa foi construída e, quem diria, anos depois, revelou tal surpresa. Tudo começou devido a um incêndio provocado provavelmente por moradores de rua que ocupavam o local. Depois de conter o incêndio, a família decidiu doar o que restou de madeira para a construção de moradias para pessoas carentes. Tudo ia bem, quando na hora da retirada do assoalho, avistaram o que parecia o improvável. A resto da árvore sustentava um dos alicerces da casa e mesmo depois de tantos anos, ela ainda cumpria o dever que recebeu. O fato chamou a atenção do diretor de operações da CMTU, João Verçosa, que acompanhava a obra.
Intuitivamente, ele achou que aquilo tinha algum valor histórico e entrou em contato com o Museu Histórico de Londrina. A descoberta chamou a atenção de Ninger Marena, responsável pela curadoria do acervo museológico da instituição, que prontamente acolheu o que chama de ''documento vivo da história''.
Neto de avó de origem indígena, Marena comentou que aprendeu a respeitar a natureza na prática. ''Quando era criança, a minha avó não admitia que arrancasse displicentemente uma folha de árvore. Caso fizesse isso, levava um puxão de cabelo'', contou.
Admirado com o tamanho do tronco, ele agilizou a remoção do que restou da árvore até o campus da UEL. ''Considero a universidade um santuário para as perobas e achei que ali seria o local mais adequado para valorizar esse material''.
O que restou da árvore de porte majestoso está em frente ao Restaurante Universitário, ao lado de uma jovem sibipiruna. Ao fundo, pode se avistar uma peroba imagem real do que o 'toco de peroba' já foi um dia. É intrigante imaginar que muitas casas antigas da cidade possam esconder surpresas como essa. Um olhar atento ao resto da árvore denuncia um prego, já enferrujado, fincado na sua madeira. Sabe-se lá por qual motivo ele foi posto ali.
Segundo Marena, a idéia de colocar o resto da peroba naquele ponto foi uma forma de estimular a consciência ambiental de milhares de estudantes e visitantes que passam pela universidade diariamente. ''Assim eles poderão apreciar uma árvore viva e, ao mesmo tempo, o que restou de uma árvore tão bonita após o processo de ocupação territorial da cidade'', destacou Marena.
Mas o local onde a peroba foi colocada ainda não é definitivo, adianta Luiz Cláudio Buzeti prefeito interino da Prefeitura do Campus. É até, digamos, compreensível já que a universidade parece não ter um projeto sistematizado de preservação se tem, eis um bom motivo para acioná-lo e transformar os ''restos mortais'' dessa peroba num mote para um projeto de educação ambiental. Faltam placas didáticas sobre as diversas espécies de árvores que compõem o campus e nem foi possível precisar quantas perobas ainda resistem no local.
Será que algum biólogo ou futuro profissional poderia, voluntariamente, fazer um trabalho de conservação? A pergunta fica aberta, à espera de respostas. Uma coisa é certa: parece haver um certo descaso com o símbolo da colonização do norte do Paraná, e em especial de Londrina. Que pena. Com certeza, do alto, a peroba deve ter uma visão mais ampla da vida.


