BRASÍLIA - O professor Ernani Pimentel fica louco da vida toda vez que escuta alguém dizer que Juscelino Kubitschek (1902-1976) foi o primeiro idealizador de Brasília. Ou que o Lago Sul, reduto de ricos e poderosos, é um bairro da cidade. Ou que a capital federal não tem esquinas. Não pense que Pimentel é um daqueles brasilienses convictos... Ele é mineiro. Mas, como brasileiro e professor , se diz indignado de ver erros sobre a história da capital do País sendo veiculados na imprensa e em livros escolares. ''São mais de 120'', diz ele.
Incomodado com tanta desinformação, Pimentel, que também é sócio de uma operadora de turismo, decidiu iniciar uma campanha para resgatar ''a verdadeira história de Brasília''. Juntou-se ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal (IHG-DF), investiu R$ 15 mil para revirar os arquivos do IHG e chegar à ''verdade''. O levantamento resultou no livro ''Brasília, Capital do Brasil, Educação e Cultura pelo Turismo'' (Ed. Pórfiro, 141 págs.), lançado em setembro. A edição serviu de base para a elaboração do roteiro cívico-cultural, um conjunto de aulas itinerantes para estudantes a partir da 3 série de todo o País.
As crianças começam aprendendo que muito antes de JK, a transferência da capital para o interior já era defendida por nomes de peso como Tiradentes; pelo jornalista Hipólito José da Costa, dono do ''Correio Braziliense'', no século 19; por José Bonifácio, patriarca da Independência; e pelo Visconde de Porto Seguro, diplomata que se licenciou do cargo, em 1877, para fazer uma expedição científica até o Planalto Central, que serviu de base para a elaboração de um projeto de mudança da capital. Assim, JK apenas executou uma determinação já prevista na Constituição.
Como não poderia faltar um toque místico, as crianças ouvirão, ainda, que São João Bosco, educador italiano canonizado pela Igreja em 1934, teve um sonho profético em 1883. Ele previu que ''entre os graus 15 e 20 (do Brasil), havia uma enseada extensa e larga e, quando se vierem a escavar as minas escondidas em meio a estes montes, aparecerá a Terra Prometida, onde correrá leite e mel''. Segundo a visão de Bosco, a terra produziria uma ''riqueza inconcebível''. Seria só coincidência que essa 'riqueza inconcebível' tenha se transformado na cidade com a maior renda per capita do País?
Depois da introdução, as crianças saem da sala de aula para conhecer pontos importantes da história local. Visitam, por exemplo, a pedra fundamental da cidade que, por ironia, fica em Planaltina, a 30 quilômetros da capital.
Descobre-se que o Lago Sul, Brasília e Taguatinga são três das 19 regiões administrativas do Distrito Federal e têm administrações próprias. Daí o erro em dizer que se mora no Lago Sul, em Brasília. Por causa do plano piloto, explica Pimentel, Brasília não tem bairros tem setores. É o que indicam aqueles endereços esquisitos que começam com siglas como SQS (Super Quadra Sul).
No fundo, os erros sobre divisão administrativa do Distrito Federal importam pouco. O legal mesmo é a iniciativa de aproximar jovens do poder. Na hora do almoço, por exemplo, as turmas sobem para comer no restaurante do Ministério do Planejamento, que oferece uma bela vista do Lago Paranoá. Aos poucos, alguns mitos são desfeitos. Outros, mitificados ainda mais. A tal esquina que o professor Pimentel prometeu mostrar, por exemplo, ficou no papel. Talvez não exista mesmo.

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