Hirsch em dose dupla
Simone Mattos
De Curitiba
Dois espetáculos radicalmente opostos foram concebidos na mesma época e ambos estão na programação do 9º Festival de Teatro de Curitiba. Play, que tem estréia marcada para o dia 23 de março, e A Vida é Cheia de Som e Fúria, que já está em cartaz e continuará em temporada até o Festival, têm em comum toda a equipe técnica, incluindo a direção do talentoso Felipe Hirsch.
É ele quem justifica a enorme diferença que existe entre as duas montagens. Trabalhando nas duas ao mesmo tempo, eu enlouqueceria se elas não fossem tão diferentes, diz o diretor.
Play surgiu de uma conversa com a atriz Eliane Giardini, no Rio de Janeiro, durante a temporada de Por um Novo Incêndio Romântico, no ano passado. Ela praticamente me encomendou uma peça que falasse sobre os mitos do cinema e do teatro, conta. Play acabou sendo criado numa parceria entre Hirsch, Eliane e Guilherme Weber.
É uma comédia violenta, o espetáculo mais diferente e mais original da minha carreira, define Hirsch, que nasceu no Rio de Janeiro e mora em Curitiba desde a adolescência. Aos 28 anos de idade, ele já dirigiu dez montagens profissionais, incluindo Baal Babilônia e Juventude. O espetáculo Por um Novo Incêndio Romântico fez recentemente temporada de três meses no Rio de Janeiro, foi indicado pelo Jornal do Brasil como um dos cinco melhores espetáculos de 1999 e rendeu a Hirsch uma indicação para o prêmio Shell.
Em meio a tudo isso, Play começou a ser concebido. A comédia ácida e nostálgica fala sobre todos os personagens envolvidos numa produção teatral: atores, produtores, críticos. O espetáculo retrata uma festa de estréia, onde todos estão reunidos. Ali eles mostram as suas reais personalidades, que ficam escondidas pelo cotidiano do palco, explica Hirsch.
Em aproximadamente 1h30, como num filme de Buñuel, as personalidades vão sendo reveladas, expondo as características emocionais de cada personagem. As interpretações ficam por conta dos atores Eliane Giardini, Guilherme Weber, Erica Migon, Thais Tedesco, Fernanda Farah, Márcio Abreu e Cida Moreira.
Durante a festa, cenas imortais do cinema e do teatro vão sendo recriadas, mostrando semelhanças indiscutíveis entre aquelas pessoas e verdadeiros gênios, como Groucho Marx, Jacques Tati e outros.
Em comum, Play e A Vida é Cheia de Som e Fúria têm, por exemplo, a concepção cênica. Pela primeira vez, o diretor Felipe Hirsch criou os cenários, que são simples e utilizam mais idéias do que objetos concretos. Erica Migon e Guilherme Weber assinam os figurinos. Assim como o cenário, o figurino não foi criado de uma hora para outra, ele já estava embutido na nossa idéia inicial e veio se desenvolvendo à medida em que o espetáculo foi sendo montado, explica.
Hirsch trabalha sempre com a mesma equipe, que inclui ainda o iluminador Beto Bruel, os músicos Rodrigo Homem Del Rey e Luiz Antonio Ferreira, e o artista plástico Foca. Isso centraliza o nosso trabalho, dá mais intimidade e coerência.
E os resultados têm sido os melhores. As duas primeiras semanas da temporada de A Vida é Cheia de Som e Fúria surpreenderam até mesmo Hirsch. Recebemos cerca de 100 pessoas todos os dias, o que é muito para o teatro curitibano, e na estréia teve gente que ficou para fora do teatro, comemora o diretor.
Ele garante que o espectador nem percebe que o espetáculo tem 2h45 de duração. As pessoas não sentem o tempo passar, pois falamos de coisas leves e pessoais, explica. A Vida... é uma adaptação da obra Alta Fidelidade, do britânico Nick Hornby.
O espetáculo é um musical falado, que conta a história da vida de Rob Fleming, o DJ de um clube em Londres e dono de loja de discos, no início da década de 90. Ele e seus amigos têm fixação por fazer listas, classificando pessoas e fatos.
Na lista das cinco piores separações amorosas que já teve, o protagonista inclui a mais recente: a ex-namorada Laura que acabou de abandoná-lo. Nessas estranhas listas, estão, por exemplo, os melhores discos singles de determinada década, o que faz com que o espetáculo passe por boa parte da história da música pop. Há 70 inserções musicais no espetáculo, o que garante uma viagem que vai de Stevie Wonder, a Clash e Pixies ou Nirvana.
No elenco de A Vida é Feita de Som e Fúria estão Guilherme Weber, Fernanda Farah, Erica Migon, Marcio Abreu, Maureen Miranda, Olga Nenevê, Glaucia Domingos, Caio Marques, Daniel Cardoso e Fabiola Werlang.
O espetáculo Play, de Felipe Hirsch, fará a sua estréia no Festival de Teatro de Curitiba, dia 23 de março, às 21h30, no Teatro do Paiol (Praça Guido Viaro, Prado Velho). Haverá reapresentações nos dias 24 e 25 de março, às 20 horas. A Vida é Cheia de Som e Fúria, de Felipe Hirsch, prossegue temporada até o Festival, quando integrará a Mostra Paralela (Fringe). As apresentações são de quarta a domingo, às 21 horas, no Teatro José Maria Santos (Rua 13 de Maio, 655), com ingressos a R$ 15,00 e R$ 10,00 (quarta e quinta-feira). Classe artística e estudantes têm descontos especiais.





