A voz mais potente do hip hop nacional universalizou o discurso. Com seu carismático vocalista X à frente, o Câmbio Negro substituiu a crônica do dia-a-dia das cidades-satélites de Brasília por uma crítica social mais abrangente no novo álbum.
O disco, que tem o nome da banda, chega às lojas este mês com produção de Edu K e como o primeiro título de rap da nova gravadora Trama. O CD é lotado de scratches, guitarras pesadas, arranjos funkeados e samples da black music dos anos 70.
Traz participação especial de Supa MC TC Izlam, filho de Afrika Bambaataa, pioneiro e figura legendária do rap internacional. A banda pode ser a ‘‘bola da vez’’ da cena, caso o mercado drible a recessão econômica e resolva repercutir o sucesso alcançado pelos Racionais MC’s com seus famosos ‘‘quinhentos mil’’ CDs vendidos na última temporada.
ReproduçãoCâmbio Negro foi fundado no Distrito Federal, onde gravou os dois primeiros discos - Sub-Raça (95) e Diário de um Feto (96) - pelo selo local Discovery. Embora distante do eixo Rio-SP, conquistou fama no meio, sendo a primeira formação do gênero a se apresentar com guitarra, baixo e bateria no palco.
Apostando na decolagem da carreira, todos os integrantes (Bell, Ritchie, Daniel e Marcelinho) decidiram se mudar recentemente para São Paulo juntando-se ao já radicado X. O novo álbum supera os trabalhos anteriores com uma sonoridade encorpada onde naipe de metais convivem com colagens de estúdio e muita raspagem de agulha no vinil.
A faixa escolhida para badalar o disco é ‘‘Círculo Vicioso’’, já em execução em formato de clipe na MTV. A letra é uma espécie de recado para a garotada de periferia que se deixa levar pelo mundo ilusioriamente glamouroso dos comandantes do tráfico. ‘‘Assim como você entrou / vários vão querer entrar / E o caminho mais rápido pra fama é te matar’’, diz um trecho da mensagem.
O disco traz duas versões da faixa ‘‘Um Tipo Acima de Qualquer Suspeita’’, que inclui um sample de ‘‘Je T’aime’’, pérola do cancioneiro romântico-erótico francês. Na instrumental ‘‘Respire por Alguns Segundos’’, o DJ Marcelinho parece simular disparos de metralhadoras extraindo efeitos de seu toca-discos. As guitarras heavy se fazem presentes em ‘‘Não Confie Em Ninguém’’, um rap-metal de alta voltagem.
A disco music é lembrada através dos vocais de apoio na sarcástica ‘‘Esse é Meu País’’, onde os versos ironizam as desigualdades sociais brasileiras. O ritmo jungle se insinua ao final da ruidosa ‘‘Necronomicom’’. Mas a predominância de levadas funkeadas, na maioria das faixas, ilustra a tendência mais forte no hip hop nacional.
O CD inclui ainda uma canção-extra instrumental, que só vem à tona depois de dez minutos após o término da décima faixa. Como quase todas, reitera a atmosfera da música negra da década de 70 debaixo da estática de um vinilzão riscado. A seguir, leia trechos da entrevista feita com o vocalista X.
O novo disco está saindo por uma grande gravadora, com produção de Edu K e com toda a ‘‘infra’’ de estúdio. O que você achou do resultado final, e como você avalia esse trabalho em relação aos dois anteriores, gravados por um selo independente?
X - Esse disco é uma combinação dos dois primeiros, tanto na parte das letras como na parte musical. No primeiro, falamos mais de situações locais, da Ceilândia, da periferia de Brasília. Os samples forneciam as bases; o Câmbio Negro ainda não era uma banda. Já, no segundo disco, começamos a abordar temas mais gerais do Brasil e tentar introduzir a formação de guitarra, baixo e bateria ao lado do DJ. Com esse terceiro, fundimos tudo e a variedade musical inclui faixas tocadas com guitarra, baixo, bateria e DJ, outras faixas feitas só com samples e faixas que mistura as duas coisas.
Vocês exploraram bastante os scratches no disco, o que é raro nos discos recentes do rap nacional
X - Hoje você ouve mais scratches em discos de grupos que não são de rap como, por exemplo, O Rappa e o Cidade Negra. Os scratches, assim como o break e o grafite, que fazem parte da cultura hip hop, andam esquecidos. Quando decidimos nos apresentar tocando instrumentos, muita gente criticou falando que estávamos traindo o movimento, que tínhamos virado metaleiros e tal. mAS POUCOS COMO NóS CONTINUAM FALANDO DO BREAK E DO GRAFITE NAS CANçõES.
Como vocês conheceram o filho do Afrika Bambaataa?
X - Ele tinha vindo com sua banda ao Brasil, e acabou ficando mais alguns dias por aqui depois da turnê. Na ocasião, estávamos em fase de gravação, enfurnados no estúdio das três da tarde às três da manhã. Através de alguns contatos, ele ficou sabendo do Câmbio Negro e foi conferir nosso trabalho. Depois de ouvir duas músicas, ele chapou com o som e quis participar. A gravação virou um repente, com ele cantando alguns versos em inglês. Pra mim, que comecei dançando break em 1983 ao som do Afrika Bambaataa, foi uma honra.
Você acha que o sucesso dos Racionais MC’s vai, finalmente, tirar o rap do gueto e estabelecê-lo como um gênero aceito por gravadoras, rádios e grande público?
X - É o que esperamos que aconteça. Assim como os Racionais, o Thaíde e o DJ Hum, e outros, nós somos sobreviventes. Nós superamos tudo, desde a lambada até a axé music, o pagode e o breganejo. Sobrevivemos a tudo isso, a todos os argumentos dos executivos das gravadoras que diziam que o rap era som de ladrão e não vendia. Agora, com os Racionais vendendo 500 mil cópias de um CD independente, todos viram que o rap é um grande negócio e passaram a correr atrás dos grupos. O problema é que, para aproveitar o boom, pegam qualquer merda enganando o público. A coisa piora quando os próprios artistas passam a acreditar na mentira.
Você tem acompanhado a nova geração? Qual é o discurso dos novos grupos?
X - Tem uma coisa ruim na nova geração, que é se colocar em confronto com quem está batalhando há mais tempo na cena. Há muita falta de respeito por aí. Há grupos que tem dois ou três anos e começam a se achar o máximo porque apareceram numa coletânea. Eles se acham no direito de te peitar. Alguns metem o pau nos Racionais por causa do sucesso que eles alcançaram, quando deveria ocorrer justamente o contrário, afinal quando um grupo se destaca acaba sempre levando os outros junto e fortalecendo o meio.

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