As letras zangadas continuam hegemônicas. Quem contraria a cartilha, suavizando o discurso social, é obrigado a ouvir sermões no gueto. É como as coisas funcionam no carrancudo rap nacional. A dupla paulistana Helião e Negra Li não foi poupada de críticas na comunidade hip hop ao lançar o CD ''Guerreiro Guerreira'' pela gravadora Universal, uma das gigantes multinacionais do mercado.
Ambos dividem os vocais e a autoria das 11 faixas do disco de estréia no qual cantam o amor, Deus e problemas do cotidiano da zona norte (onde moram) de São Paulo. ''Não critico os grupos que falam da realidade violenta e pobre da periferia. Eles vivem na rua, na correria. Eu e o Helião somos mais tranquilos, mais sossegados. Se fizéssemos músicas agressivas estaríamos mentindo. Nosso dia-a-dia é outro, é mais ameno. Minha família é evangélica. Minha mãe, que é crente, gosta das letras do Helião'' explica Negra Li, 25 anos, em entrevista por telefone.
Ela destaca a musicalidade da dupla como um diferencial entre os grupos nacionais do gênero. ''A gente faz música, não se limita ao rap. Se você ouvir o disco, vai notar que misturamos o rap com o funk e o r&b. Eu sou influenciada por Lauryn Hill, Mary J. Blige e Wu Tang Clan'' diz. O CD foi produzido por David Corcos e Daniel Gamjaman, responsáveis pelas bases ''old school'' (velha escola), com ênfase em timbres de teclados da black music dos anos 70.
Traz participações especiais de Mano Brown (dos Racionais MC's) na faixa ''Periferia'' e de Marcelo D2 em ''O Rap Não Tem Pra Ninguém'', esta um dos pontos altos do repertório ao lado das faixas ''Bom Estar com Você'' e ''A Noite'' (com arranjo para flauta e baixo funkeado). A canção-título, outro destaque, colocou o trabalho da dupla em evidência ao ser incluída na trilha sonora da novela da Globo ''Começar de Novo'' como tema da personagem de Thalma de Freitas.
''Queremos melhorar a visão que as pessoas têm sobre o rap. Muita gente deixa de ouví-lo por achá-lo um estilo musical agressivo. Acho que agora, com nossa música na TV, elas poderão começar a prestar mais atenção'' acredita a cantora-revelação da Vila Brasilândia. Negra Li virou atração para os olhos e ouvidos dos executivos das gravadoras após participar da faixa ''Não É Sério'', hit do álbum ''Nadando com os Tubarões'' (2000), da banda Charlie Brown Jr.
Posteriormente, a banda de Santos a chamou para uma nova colaboração, desta vez para o CD/DVD ''Acústico MTV'', lançado em 2003. Com tal projeção, a diva foi convidada a gravar um CD-solo, mas recusou a proposta por não estar preparada. Depois, argumentou que só entraria em estúdio acompanhada de Helião e sua banda. A gravadora topou. O mano e a mina se conheciam há mais de uma década.
E durante 8 anos, dividiram palcos como integrantes do RZO (Rapaziada Zona Oeste), grupo referência do rap paulistano fundado por Helião no final dos anos 80. De lá para cá, a evolução foi grande. O rapper ganhou tarimba na arte da rima. E sua parceira investiu no aperfeiçoamento vocal. ''Quero continuar estudando para construir uma carreira duradoura. Há quatro anos, sou coralista e solista no Coralusp. E nesse mesmo período, comecei a tocar piano. Não quero me contentar com o que já conquistei'' salienta a garota. Palavra de guerreira.

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