Hilda, o furacão que marcou época
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sexta-feira, 10 de julho de 1998
Estelio Feldman 
Superando as expectativas pessimistas geradas nos primeiros capítulos, a minissérie Hilda Furacão, que está entrando na reta final, na Globo, ganhou forma e se situa entre as boas produções da TV nos últimos tempos. Na verdade, a série está até ultrapassando os limites, provocando pressões de partidos políticos por causa da discussão que coloca sobre a situação do Brasil naqueles tumultuados anos 60. Houve até denúncias visando tirar de cartaz a minissérie, por considerar que fere a legislação eleitoral, o que é, no mínimo, uma estupidez.
Ocorre que, na verdade, Hilda Furacão está servindo para mostrar a excepcional mudança de costumes ocorrida no Brasil nestes pouco menos de 40 anos. De fato, os preconceitos apresentados pela minissérie, naquele começo de anos 60, se provocam até espanto nos dias de hoje, são adequadamente evocativos de uma era recente. De fato, nós, brasileiros, éramos assim naquele tempo: cheios de preconceitos, de medos, de estereótipos. Em termos políticos, tínhamos importado a Guerra Fria, com a divisão entre os comunistas e os outros, o que acabou, entre tantas outras coisas, resultando no golpe de 64, com todas as suas consequências. Quando vejo os comunistas da minissérie tenho até pena, porque sei que muitos jovens de fato eram assim e também lembro o que aconteceu com eles depois da Revolução.
Há também os outros preconceitos, sociais, sexuais, os tabus, a hipocrisia dos que tinham dois tipos de padrão moral: o que apresentavam ao mundo e o que vivenciavam nos antros do pecado. Tudo isto muito bem temperado, com um elenco que se tem apenas umas poucas grandes estrelas, se mostra homogêneo e bem conduzido.
Para completar, naturalmente, a trama central, a Hilda, personagem central, e seu romance com o Santo, o pobre Maltus, igualmente comum na época e deslocado, hoje, no tempo. É doloroso até ver o sofrimento do jovem sacerdote, encantado pela maravilhosa mulher que é alvo do desejo de tantos mas que só quer ser do Santo, a eterna e sempre atual história dos amores proibidos (sempre os mais interessantes).
Hilda Furacão ganhou força e luz própria. E conseguiu se destacar, deixando de ser uma espécie de atração tampão para a época da Copa para se converter em uma peça muito valiosa, notadamente como amostra de uma época tão recente mas já, aparentemente, tão antiga.
E, depois dela, uma outra personagem forte, Maria Moura, uma reprise que vale a pena rever.


