Hilda Hilst vai caminhar sobre as águas. Ela e quem mais aparecer para ver a exposição, com abertura hoje à noite em São Paulo, que comemora os 70 anos da escritora (completados em abril) com um passeio em suas obsessões.
Não é uma exposição de efeméride qualquer: toda ordem cronológica foi ignorada. Em vez disso, estão símbolos do universo de Hilda Hilst, como Deus, o tempo, o vazio, o infinito, a natureza, os bichos. Essa água em que todos andarão sobre é um rio artificial em cujo fundo se poderão ler textos da escritora.
Também estão lá, em grandes painéis fotográficos, seus 95 cachorros e a figueira a quem ama tanto que mandou construir sua casa perto dela. De documentos e memorabília, pouca coisa além de retratos, originais de seus escritos, a máquina de escrever. Mesmo em tudo isso, o simbólico - sobre a máquina, por exemplo, desce um fio de areia, como numa ampulheta.
Há ainda o ‘‘oco’’, um poço que simboliza o abismo, outra obsessão, coberto pela névoa. ‘‘Ela fala muito do oco, da ‘‘oquidão’’’, diz a arquiteta Gisela Magalhães, co-curadora da exposição. ‘‘E essa coisa neblinosa dá a sensação de infinito. Ela trabalha o tempo todo com infinitos.’’ A arquiteta cita a poeta para mostrar do que fala - ‘‘Costuro o infinito sobre o peito como aqueles que amam’’-, embora advirta que Hilda é intraduzível e diga da dificuldade de pôr tudo do que a escritora é e do que escreve em um espaço físico.
Gisela é o que se pode chamar de a pessoa certa na hora e lugar certos. Amiga de Hilda Hilst há 55 anos, também acaba de entrar nos 70. Ou seja, a exposição não só é uma espécie de comemoração dupla como é a celebração de uma longa amizade.
‘‘Nos conhecemos virando gente, eu indo nas águas dela. Nunca conheci ninguém mais livre’’, diz Gisela sobre Hilda. ‘‘Estou contente de que seja ela a fazer a exposição. A Gisa é deslumbrante’’, diz Hilda sobre Gisela, usando um dos seus adjetivos favoritos (por telefone; e mais não diz, ainda não viu a exposição e se sente ‘‘constrangida’’ com a homenagem).
Quando concebeu uma exposição sobre Clarice Lispector, em 90, a arquiteta ouviu da amiga a reclamação: ‘‘Para mim você não faz uma coisa bonita dessas’’. O tempo passou e Gisela decidiu que agora era ‘‘a hora’’.
Para seu parceiro na empreitada, convidou o produtor cultural Ricardo Fernandes, outro apaixonado por Hilda Hilst como leitor - ainda não a conhece pessoalmente. ‘‘Sou maravilhado pela obra dela. Essa exposição foi montada com paixão. A escolha dos textos que entrariam e os que ficariam de fora chegou a ser ridícula’’, diz.
A princípio, seria uma coisa pequena, no corredor de entrada do Sesc Pompéia. Depois, a direção do local acabou conseguindo um espaço maior (600 metros quadrados) e se pôde incluir boa parte do universo da escritora, como Gisela e Fernandes queriam.
Ao lado do rio, ao entrar, está a ‘‘mata’’ - a escritora vive em um sítio perto de Campinas. Do lado oposto, um painel com os livros de Hilda Hilst (alguns também à venda na exposição) e de autores que foram importantes para ela, como Samuel Beckett, Franz Kafka, o filósofo Wittgenstein. Na frente do painel com os cachorros, a figura do ‘‘porco menino’’, um dos nomes que a escritora deu a Deus.
Embaixo da escada está a sala de leitura, com os originais datilografados e corrigidos à mão, em que algumas páginas revelam anotações de contas a pagar no verso. A escritora, segundo diz Gisela, está ‘‘despossuída, coitada’’, mas não liga para isso. ‘‘A única coisa que não pode faltar para a Hilda é um monte de comida de cachorro’’, confidencia.
Na figueira, uma fotomontagem mostra a passagem do tempo para Hilda Hilst, de criança até hoje. Há também fotos familiares, sobretudo do pai Apolônio, figura marcante na vida da escritora, e um cantinho que chora - é que ela disse que o mal do mundo estava em um canto.
Ao final, se volta à água, e da saída se vê toda a exposição ao avesso. ‘‘É bem uma coisa de Hilda, mostrar os avessos de tudo’’, explica Ricardo Fernandes. No teatro anexo ao espaço, estão programadas leituras dramáticas de poemas e textos teatrais da escritora.
A Hilda Hilst pornográfica dos últimos anos aparece implícita mais aí, no teatro, do que na exposição propriamente dita - o conceito central é de que fosse algo mais introdutório, a apresentação ao público em geral de uma escritora tida como ‘‘difícil’’, descomplicando em vez de complicar mais.
‘‘Quero que os meninos capoeiristas que passam aqui na porta, por exemplo, venham ver e gostem’’, diz Gisela. ‘‘Qualquer menino entende essa exposição. É como disse a Hilda, ninguém sai de casa para ler em pé.’’
A entrada para conferir a exposição, que fica em cartaz até 4 de fevereiro, é gratuita. O Sesc Pompéia fica na rua Clélia, 93, Lapa, região noroeste de São Paulo. Os horários de visitação são: de terça a domingo, das 10 às 21 horas. Mais informações no telefone 0/xx/11/3871-7700.

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