"Hilary e Jackie" mostra a intimidade de um gênio
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quarta-feira, 26 de maio de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 27 (AE) - É bom saber tocar um instrumento: a constação prazerosa de Caetano Veloso é, para a grande maioria dos pobres mortais, um desejo inatingível que nos faz admirar os grandes músicos como portadores de uma centelha divina. Assim, vê-los cair de lá de cima do Olimpo musical é de arrancar lágrimas. Que, com certeza, não faltarão aos seus olhos quando assistir, a partir de amanhã, a "Hilary e Jackie", de Anand Tucker, com Emily Watson (indicada para o Oscar pela sua notável interpretação) como Jacqueline Du Pré (1945-1987), cuja efêmera carreira de violoncelista foi tragicamente encerrada no apogeu, pela esclerose múltipla que a matou.
Mas vá tranquilo ao cinema: não se trata de mais um daqueles dramalhões a anos 70, com patinadoras leucêmicas ou love stories. "Hilary e Jackie", ainda que longe de ser uma obra-prima, é um filme sensível que discute, sem pieguismo, as consequências terríveis da genialidade na vida da artista e de sua família. Baseado no livro polêmico e homônimo, escrito a quatro mãos pela irmã (e pelo irmão) da violoncelista - filme e biografia foram condenados em peso pela sisuda crítica erudita e por antigos colegas de Jackie, como Perlman e Rostropovich, que não aceitaram a exposição brutal de detalhes pouco edificantes da sua vida, incluindo-se a sua obsessão sexual e o triângulo amoroso com a irmã -, o filme de Tucker, com curiosa uma estrutura musical, com motivos que vão e voltam como numa sonata
conta a relação de amor e de ódio entre as irmãs e entre Jacqueline e seu violoncelo.
Que ela, aos 5 anos, ouviu pela primeira vez no rádio e pediu aos pais que lhe dessem aquela coisa que fazia um barulho tão belo. "Alta, magra, loira, uma mistura da Alice, de Lewis Carroll, e um anjo da Renascença", como a definiu um crítico, Jackie transformou-se em celebridade aos 17 anos, após sua estréia no Royal Festival, em Londres. Irriquieta ao tocar, transfigurava-se nas suas apresentações, como se tomada por um transe ou êxtase quase sexual. Como Callas, era preciso ver, não só ouvir, Jacqueline em cena. Suas interpretações, se não perfeitas tecnicamente, transbordam intensidade dramática. Basta que se ouça a sua versão do "Concerto para Violoncelo", de Elgar, para perceber que aquilo não era só música.
Aluna e amiga de Casals, Tortelier e Rostropovich, casou-se em 1967, com o pianista e maestro Daniel Baremboim, após converter-se, para horror familiar, ao judaísmo. Durante um concerto em Nova York, percebeu que não sentia mais as cordas do violoncelo com a mão esquerda, mas foi até o fim da sua apresentação. Descobriu que estava com esclerose múltipla, que a tirou dos palcos para, no fim, tirar dela todos os movimentos. A agonia durou 14 anos.
Não importa se o retrato de Hilary carrega nas tintas. O drama de Jackie é maior do que a sua vida e revela, sem apelações, a mediocridade da nossa.
Serviço - "Hilary e Jackie". Drama. Direção de Anand Tucker. Inglaterra, 1998. Com Emily Watson, Rachel Griffith, James Frain. Duração 123 minutos. Distribuição Buena Vista Internacional.


