H.G. WELLS E O INVISÍVEL GLOBALIZADO
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de novembro de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para folha 2 
Circulando ainda pelas salas paranaenses o lamentável O Homem Sem Sombra, experiência cinematográfica estéril, roteiro esquálido e parasita sobrevivendo às expensas das sete maravilhas da tecnologia computadorizada. O filme de Paul Verhoeven não deve e nem pode passar ileso. E não por coincidência, mas para acentuar a fragilidade de um produto meramente consumista, que um canal de tevê por assinatura reprogramou nestas últimas semanas algumas reapresentações de O Homem Invisível, o clássico de ficção científica que James Whale realizou em 1933 a partir do livro homônimo de H. G. Wells, origem primeira da invisibilidade como fator metafórico de questionamento da condição humana, a partir do final do século passado.
Escrita em 1897, quando o inglês Herbert George Wells tinha apenas 29 anos, a fantasia científica The Invisible Man nada tinha de premonitória. Pelo menos nada assim perceptível pelos resenhistas de plantão. Mas o tempo se encarregou de reordenar a então extravagante criação, dando a ela certificado de autenticidade. De ficção à realidade, bastou uma dose massiva e secular de civilização e progresso. Analisar a forma de vida nas megalópoles é constatar que, sem qualquer necessidade de fórmulas químicas que alterem a cor e/ou a matéria de que é feito o corpo humano, o homem atual, o homem urbano já é o homem invisível. O invisível globalizado, desanimado no sentido de privação da alma. Se a invisibilidade consiste em não ser visto, em não ser sentido e ser ignorado, que outra definição seria tão apropriada para este ser que não a de homem invisível? Já não é ficção científica falar de uma humanidade invisível, constituída por pessoas presas numa paisagem de cimento, com medo do próximo muito próximo, resguardando à bala aquilo que pomposamente chamam de vida privada, mas que não passa de extinção de vida.
Embora simples, o argumento da novela de Wells, como de resto de toda sua produção literária, entre ficção e ensaios, vem recheado de princípios ideológicos. O que faz dele um dos grandes pensadores críticos da revolução industrial. Revisitar as páginas deste cult de cabeceira é sempre um misto de prazer renovado, entre a maravilha do desafio à imaginação e a fruição de uma literatura como veículo de expressão de idéias, pensamentos e sentimentos bem definidos. No livro, Griffin é o cientista que descobre uma fórmula química capaz de torná-lo inteiramente invisível. A partir deste enunciado, Wells monta uma trama sobre as perseguições contra Griffin, a moralidade da ciência e incompetência dos governos para tratar assuntos importantes como este. As idéias socialistas do escritor fizeram que para ele o ato de escrever não fosse somente um instrumento de beleza e da perfeição formal, mas algo forte e contundente.
Até o capítulo 15, Wells deixa o leitor com a impressão de que Griffin é simplesmente o estereotipado cientista louco. Amargurado e brilhante, mas louco. A partir da chegada do assistente, Dr. Kemp, é introduzido o contraponto necessário para se avaliar as possibilidades de uma ciência bem dirigida e a serviço de interesses sociais mais visíveis. Como tragicomédia - e há abundantes doses de humor -, O Homem Invisível cumpre com aplicação o que promete, isto é, parodiar o isolamento em que se mete o cientista moderno. Isolamento, na verdade, derivado em grande parte da perseguição e hostilidade das pessoas.
Não há como dissociar Wells e O Homem Invisível daquele momento histórico. É possível ler nas entrelinhas uma paródia da sociedade capitalista vitoriana, conservadora e repressiva. E também cabe incluir na avaliação uma alegoria da angustiante solidão do cientista a serviço das melhores causas de sua época. Wells escreveu ficção científica, é certo. Mas nenhum dos temas sociais, politicos, científicos e econômicos de seu tempo foram ignorados em sua literatura. Os sonhos utópicos de uma sociedade na qual a ciência estivesse realmente a serviço do desenvolvimento e do crescimento de homens e mulheres, onde se desse plena liberdade ao indivíduo em comunhão com razoável disciplina social, foram postos por escrito em centenas de histórias, artigos, ensaios e conferências que buscavam impregnar a consciencia lúcida de governantes, intelectuais, artistas e homens comuns, para que as coisas que estão por vir(things to come), como costumava dizer, fizessem sentido.
O cinema inspirado por este tipo de literatura muitas vezes chegou a enriquecer o gênero - descartadas as habituais exceções. No caso de O Homem Invisível, de 1933, o poder da imagem realça a dramaticidade subjacente no livro. O filme de James Whale, embora respeitoso diante do original, explora com mais coragem a lição que a novela oferece em velada ambiguidade: não se deve ser diferente, não é prudente se salientar sob pena de rigoroso castigo. Décadas depois da era vitoriana, Whale, homossexual assumido e estigmatizado pela industria e pela mídia, sabia do que estava falando. Sua vida privada, um tormento revelado no cult recente Deuses e Monstros, é talvez a mais radical ilustração da síndrome do homem invisível.


