HEROÍSMO À TODA PROVA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de julho de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
Um olho na bilheteria, outro na meteorologia. Se no início do mês os distribuidores e exibidores brasileiros riam à toa e esfregavam as mãos por conta de uma gorda temporada de lançamentos de férias, a esta altura andam apreensivos por conta do destempero que assola os termômetros nas regiões sul e sudeste, onde se encontra a maior concentração de salas do país. Neste efeito cascata congelada de sucessivas massa polares, ficar em casa tem sido o programa mais prudente mesmo para cinéfilos já curtidos pela intempérie. Sorte da Fox-Warner, que colheu farta recompensa com Missão Impossível, lançado em plena amenidade de um veranico. Agora é hora da Columbia arriscar todas as fichas e motivar o publico com Mel Gibson na pele de um combatente pela liberdade durante a guerra da Revolução Americana em O Patriota (veja a programação de cinema na página 5), a partir de hoje em ambicioso lançamento nacional.
1776, Carolina do Sul. O conflito entre os que lutam pela independência e os ingleses parece inevitável. Benjamin Martin (Mel Gibson) sabe muito bem o que é uma guerra. E isto ele não quer mais. Este velho herói de combates contra franceses e índios sabe o que é a violência dos conflitos armados. Agora viúvo de mulher e mãe venerada e morta prematuramente, ele se dedica aos sete filhos e à plantação. Mas o filho mais velho, Gabriel (Heath Ledger), idealista e fogoso, acredita que é justo lutar para o surgimento de um país livre. Contra a vontade do pai, ele se alista no exército revolucionário. Benjamim não vai ficar muito mais tempo à margem da História...
Assim que as tropas inglesas, sob as ordens do desprezível general Tavington (Jason Isaacs), chega às portas de sua propriedade o destino está traçado. Para salvar Gabriel e o resto da família, Benjamin não tem outra escolha a não ser entrar no conflito. E os ingleses ainda não sabem que espécie de briga compraram. Além da experiência de ex-combatente, juntam-se agora a raiva de pai ameaçado e o ideal de liberdade.
Especialista em filmes de aventura de grande orçamento ( Stargate, Independence Day e Godzilla, feitos em parceria com o fiel produtor ), o alemão Roland Emmerich decidiu colocar em imagens uma guerra muito pouco conhecida do grande público e por isso mesmo raramente evocada pelo cinema, a Guerra da Revolução, que precedeu a outro grande conflito, a Guerra da Secessão. Esta luta sangrenta uniu o ardor dos cidadãos americanos em torno de princípios de liberdade e justiça, contra a monarquia britânica.
O Patriota reconstitui a vida de um desses combatentes, Francis Marion, conhecido pelo nome de Swamp Fox ou raposa do pântano. Depois de seu papel libertário em Coração Valente, Mel Gibson encarna de novo um herói dos campos de batalha.
O épico de Emmerich pode ser visto, entre apelos diversos e muitos equívocos, como uma história de amor entre pai e filhos, entre pátria e filhos. A Sony Pictures desembolsou um orçamento de US$ 80 milhões, e do total entregou a Gibson um cheque de US$ 25 milhões. Estava assim recompensada a total confiança num intérprete ligeiramente conservador, com amplas condições de criar a contento um tipo de convicções idealistas muito próximo do coração dos americanos. Ele constrói aqui um personagem decalcados em Mad Max ou Braveheart, e somente o nome de Mel Gibson poderia garantir, num contexto de bandeira estrelada e hasteada, um grande sucesso doméstico e logo em seguida internacional. Não foi à toa que a Sony acenou com a coincidência temática, o nacionalismo panfletário, e de lançamento o 4 de julho entre Independence Day e Patriot.
Rodado na mesma Carolina do Sul onde de fato foram travadas as mais sangrentas batalhas daquele período, após meses de preparativos em colaboração com o Instituto Smithonian (trajes, músicas, cenários), O Patriota é típico da moda atual dos filmes de guerra: realistas, plenos de ação, histórico-aventureiros. Depois da Segunda Guerra Mundial, do Vietnam e da Guerra do Iraque, O Patriota nos faz retroceder no tempo mais de dois séculos. É uma das guerras que menos frequentaram o cinema, a da Independência dos Estados Unidos, com destaque longinquo para o clássico de D.W. Griffith, O Nascimento de Uma Nação, realizado no início do século, e para o desastrado Revolução, de Hugh Hudson, com Al Pacino, já nos anos 80.
O filme bem poderia receber outro batismo, como A Apologia da América. Em duas horas e quarenta, o que não faltam são bons sentimentos, valores heróicos e personagens perfeitos. A cada momento, O Patriota não tem outro propósito que não o de glorificar a nação americana e sua terra de liberdades, defendida pelo autêntico, verdadeiro americano, Mel Gibson, transformado para a ocasião em homem perfeito, dotado a uma só vez de talentos de Rambo e Zorro. É uma grande diversão, vê-lo empinar o cavalo, manusear com tal destreza tanto a baioneta quanto o tomahawk indígena, dizimando um sem número de soldados ingleses e brandindo a bandeira americana no campo de batalha, verdadeiro homem dos sete instrumentos, perfeita máquina de matar.
E ainda não é tudo. Excelente estrategista, seu personagem é ainda pai extremado, bom cristão, eficiente professor (para os escravos), um verdadeiro arrependido (graças ao amor de uma mulher) e amigo dos animais atributo nem tão acessório como se poderia imaginar. Dentro desse espírito assim tão puritano, é de causar surpresa que o roteiro tenha providenciado uma ligação amorosa com a irmã da falecida esposa.
O maior problema de O Patriota, no entanto, não é circunstancial, mas de enfoque mesmo. Robert Rodat, o mesmo roteirista de Soldado Ryan, despojou e empobreceu a revolução americana de todo e qualquer pano de fundo histórico e aí até poderiam se justificar os protestos dos ingleses diante do filme, não fosse a grosseira insistência do marketing em ampliar essa bobagem inconsequente para vendê-la como trailer piegas às platéias famintas de gossips. E ainda transformou a história em soap-opera, principalmente naquilo mais emocionalmente perecível que O Patriota pinçou de Ryan. Há mais ressonâncias do filme de Spielberg, como o hiper-realismo nas sequências de combate. O gosto de Emmerich pela refrega à baioneta, ou pelo detalhe da cabeça arrancada pela bala de canhão, ou ainda pelo balé de corpos mutilados demonstra que Emmerich foi o mais atento dos espectadores diante dos vinte minutos iniciais do filme de Spielberg.


