Um olho na bilheteria, outro na meteorologia. Se no início do mês os distribuidores e exibidores brasileiros riam à toa e esfregavam as mãos por conta de uma gorda temporada de lançamentos de férias, a esta altura andam apreensivos por conta do destempero que assola os termômetros nas regiões sul e sudeste, onde se encontra a maior concentração de salas do país. Neste efeito cascata congelada de sucessivas massa polares, ficar em casa tem sido o programa mais prudente mesmo para cinéfilos já curtidos pela intempérie. Sorte da Fox-Warner, que colheu farta recompensa com ‘‘Missão Impossível’’, lançado em plena amenidade de um veranico. Agora é hora da Columbia arriscar todas as fichas e motivar o publico com Mel Gibson na pele de um combatente pela liberdade durante a guerra da Revolução Americana em ‘‘O Patriota’’ (veja a programação de cinema na página 5), a partir de hoje em ambicioso lançamento nacional.
1776, Carolina do Sul. O conflito entre os que lutam pela independência e os ingleses parece inevitável. Benjamin Martin (Mel Gibson) sabe muito bem o que é uma guerra. E isto ele não quer mais. Este velho herói de combates contra franceses e índios sabe o que é a violência dos conflitos armados. Agora viúvo de mulher e mãe venerada e morta prematuramente, ele se dedica aos sete filhos e à plantação. Mas o filho mais velho, Gabriel (Heath Ledger), idealista e fogoso, acredita que é justo lutar para o surgimento de um país livre. Contra a vontade do pai, ele se alista no exército revolucionário. Benjamim não vai ficar muito mais tempo à margem da História...
Assim que as tropas inglesas, sob as ordens do desprezível general Tavington (Jason Isaacs), chega às portas de sua propriedade o destino está traçado. Para salvar Gabriel e o resto da família, Benjamin não tem outra escolha a não ser entrar no conflito. E os ingleses ainda não sabem que espécie de briga compraram. Além da experiência de ex-combatente, juntam-se agora a raiva de pai ameaçado e o ideal de liberdade.
Especialista em filmes de aventura de grande orçamento ( ‘‘Stargate’’, ‘‘Independence Day’’ e ‘‘Godzilla’’, feitos em parceria com o fiel produtor ), o alemão Roland Emmerich decidiu colocar em imagens uma guerra muito pouco conhecida do grande público – e por isso mesmo raramente evocada pelo cinema, a Guerra da Revolução, que precedeu a outro grande conflito, a Guerra da Secessão. Esta luta sangrenta uniu o ardor dos cidadãos americanos em torno de princípios de liberdade e justiça, contra a monarquia britânica.
‘‘O Patriota’’ reconstitui a vida de um desses combatentes, Francis Marion, conhecido pelo nome de Swamp Fox – ou raposa do pântano. Depois de seu papel libertário em ‘‘Coração Valente’’, Mel Gibson encarna de novo um herói dos campos de batalha.
O épico de Emmerich pode ser visto, entre apelos diversos e muitos equívocos, como uma história de amor entre pai e filhos, entre pátria e filhos. A Sony Pictures desembolsou um orçamento de US$ 80 milhões, e do total entregou a Gibson um cheque de US$ 25 milhões. Estava assim recompensada a total confiança num intérprete ‘‘ligeiramente’’ conservador, com amplas condições de criar a contento um tipo de convicções idealistas muito próximo do coração dos americanos. Ele constrói aqui um personagem decalcados em Mad Max ou Braveheart, e somente o nome de Mel Gibson poderia garantir, num contexto de ‘‘bandeira estrelada e hasteada’’, um grande sucesso doméstico e logo em seguida internacional. Não foi à toa que a Sony acenou com a coincidência temática, o nacionalismo panfletário, e de lançamento – o 4 de julho – entre ‘‘Independence Day’’ e ‘‘Patriot’’.
Rodado na mesma Carolina do Sul onde de fato foram travadas as mais sangrentas batalhas daquele período, após meses de preparativos em colaboração com o Instituto Smithonian (trajes, músicas, cenários), ‘‘O Patriota’’ é típico da moda atual dos filmes de guerra: realistas, plenos de ação, histórico-aventureiros. Depois da Segunda Guerra Mundial, do Vietnam e da Guerra do Iraque, ‘‘O Patriota’’ nos faz retroceder no tempo mais de dois séculos. É uma das guerras que menos frequentaram o cinema, a da Independência dos Estados Unidos, com destaque longinquo para o clássico de D.W. Griffith, ‘‘O Nascimento de Uma Nação’’, realizado no início do século, e para o desastrado ‘‘Revolução’’, de Hugh Hudson, com Al Pacino, já nos anos 80.
O filme bem poderia receber outro batismo, como ‘‘A Apologia da América’’. Em duas horas e quarenta, o que não faltam são bons sentimentos, valores heróicos e personagens perfeitos. A cada momento, ‘‘O Patriota’’ não tem outro propósito que não o de glorificar a nação americana e sua terra de liberdades, defendida pelo autêntico, verdadeiro americano, Mel Gibson, transformado para a ocasião em homem perfeito, dotado a uma só vez de talentos de Rambo e Zorro. É uma grande diversão, vê-lo empinar o cavalo, manusear com tal destreza tanto a baioneta quanto o tomahawk indígena, dizimando um sem número de soldados ingleses e brandindo a bandeira americana no campo de batalha, verdadeiro homem dos sete instrumentos, perfeita máquina de matar.
E ainda não é tudo. Excelente estrategista, seu personagem é ainda pai extremado, bom cristão, eficiente professor (para os escravos), um verdadeiro arrependido (graças ao amor de uma mulher) e amigo dos animais – atributo nem tão acessório como se poderia imaginar. Dentro desse espírito assim tão puritano, é de causar surpresa que o roteiro tenha providenciado uma ligação amorosa com a irmã da falecida esposa.
O maior problema de ‘‘O Patriota’’, no entanto, não é circunstancial, mas de enfoque mesmo. Robert Rodat, o mesmo roteirista de ‘‘Soldado Ryan’’, despojou e empobreceu a revolução americana de todo e qualquer pano de fundo histórico – e aí até poderiam se justificar os protestos dos ingleses diante do filme, não fosse a grosseira insistência do marketing em ampliar essa bobagem inconsequente para vendê-la como trailer piegas às platéias famintas de gossips. E ainda transformou a história em soap-opera, principalmente naquilo mais emocionalmente perecível que ‘‘O Patriota’’ pinçou de ‘‘Ryan’’. Há mais ressonâncias do filme de Spielberg, como o hiper-realismo nas sequências de combate. O gosto de Emmerich pela refrega à baioneta, ou pelo detalhe da cabeça arrancada pela bala de canhão, ou ainda pelo balé de corpos mutilados demonstra que Emmerich foi o mais atento dos espectadores diante dos vinte minutos iniciais do filme de Spielberg.

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