O perfil psicológico dos mocinhos se humanizou ao longo das décadas. É cada vez mais comum identificar atitudes pouco nobres em personagens que antigamente eram vistos como mocinhos sem máculas. Enquanto Gabriel Braga Nunes vive o herói Tony de ''Poder Paralelo'', da Record, que se envolve com a máfia e o tráfico de drogas, por exemplo, Maya, a mocinha de Juliana Paes em ''Caminho das Índias'' já aprontou muito. Chegou a casar com Raj, de Rodrigo Lombardi, esperando um filho de Bahuan, de Márcio Garcia, e não contou a verdade para o marido.
Da mesma forma, os vilões que apenas cometem maldades a cada capítulo, agora também demonstram suas fragilidades e até alguns atos de nobreza, como o Marconi Ferraço, de Dalton Vigh, que se humanizou ao longo de ''Duas Caras''. Ou seja, as tramas têm se aprofundado cada vez mais em compor mocinhos verossímeis, com atitudes com limites cada vez mais estreitos entre o bem e o mal. ''As novelas simplistas apresentam uma galeria de personagens chatos, irreais e ridículos. As grandes histórias não compartimentam o bem e o mal. Heróis sem mácula são mexicanizados demais. Essa bobagem empobreceu as novelas'', critica Lauro César Muniz, autor de ''Poder Paralelo'', da Record.
Em sua história, que traça os tortuosos caminhos da máfia, Lauro construiu o protagonista Tony, de Gabriel Braga Nunes, com contradições dignas de personagens sem rótulos. Começou como um papel dúbio, depois como um possível mafioso, até se tornar um ''herói'' repleto de defeitos. O mesmo acontece com Gustavo, protagonista de Marcos Palmeira em ''Cama de Gato'', próxima novela das seis da Globo. O arrogante e ambicioso mocinho inicia a trama ignorando seus subalternos até que, aos poucos, começa a resgatar valores antes esquecidos, como a solidariedade. ''Nossa preocupação nessa história é mostrar que os valores humanos foram deixados para trás. Não dá para ser tão individualista como ele que, neste início, tem atitudes de vilania'', observa Thelma Guedes, que assina a trama com Duca Rachid.
As Helenas do escritor Manoel Carlos são ícones da humanização dos protagonistas, o que acontece a partir dos anos 90. O que, no próximo dia 14, também vai se repetir em ''Viver a Vida'', na Globo e também assinada por Maneco. Inspiradas na destemida Helena de Tróia, as Helenas de Manoel Carlos comumente agem na contramão das melhores atitudes. A Helena de ''Por Amor'' (Regina Duarte), por exemplo, chegou a trocar seu filho vivo pelo natimorto de sua filha na trama, vivida por Gabriela Duarte. Outras de suas Helenas traem e mentem sem pudores. ''Minhas Helenas são mulheres comuns, com virtudes e defeitos, não são heroínas ou vilãs inverossímeis. Gosto do que se pode acreditar, mesmo sabendo que não é verdadeiro'', atesta Maneco. ''Ninguém mais acredita em novelas que não refletem a realidade porque mesmo a pior pessoa tem alguma qualidade. Mostrar isso é uma busca constante no meu trabalho'', argumenta Walcyr Carrasco, autor de ''Caras & Bocas''.
Na verdade, os arquétipos de vilões e heróis são estereotipados desde o início dos estudos da literatura e do roteiro. No final da década de 60, as telenovelas foram revolucionadas pela figura do anti-herói com a estreia de ''Beto Rockfeller'', de Bráulio Pedroso. A trama do horário nobre da Tupi mostrava uma nova faceta de protagonista, sem atitudes maniqueístas. Com o tempo, o formato desse personagem foi se moldando cada vez mais às novelas do horário nobre. A única exceção, no entanto, eram as tramas adaptadas da literatura, quase todas com a impoluta imagem do herói sem máculas. Ou as novelas mexicanas, com uma linguagem de fácil acesso ao apresentar vilões e mocinhos bem definidos e extremados em suas atitudes.
As novelas da Globo que mais costumam ter mocinhos e vilões mais definidos são as tramas das seis e das sete, com menos complexidade e personagens com perfis mais definidos.
Com o tempo e a necessidade de aproximar a ficção da realidade, os protagonistas começaram a se humanizar. Gilberto Braga, por exemplo, ousou ao compor a personalidade de seu protagonista Felipe Barreto, de Antônio Fagundes. O cirurgião fingia se regenerar ao longo da trama. Passou a ser odiado quando levou Márcia, de Malu Mader - que era noiva de seu empregado - para a cama, em plena lua-de-mel da personagem. ''Esse é um caso muito especial de uma novela minha. Foi um protagonista com atitudes de vilão mesmo. Mas eu não tenho receitas com meus papéis. Trabalho apenas com a intuição'', explica Gilberto. ''Os heróis sempre foram nobres e altruístas. Mas a ficção começou a refletir as atitudes mais humanas numa necessidade de identificação social, para diminuir o distanciamento das obras'', explica a psicanalista Luiza de Freitas Nobre, mestre em Psicanálise pela USP.

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