Quando o punk inglês saiu da casca, os Buzzcocks faziam parte da ruidosa prole ao lado dos Sex Pistols e do The Clash. Isso foi há 25 anos, tempo suficiente para aposentar a guitarra, criar barriga e virar crooner de pub para solteirões.
A banda de Manchester não se curvou preferindo levar adiante a cartilha dos três acordes. Agora em turnê mundial, os Buzzcocks desembarcam pela segunda vez no Brasil abrindo a excursão no Paraná onde tocam hoje em Londrina (na casa Z3, ex-Kawale) e amanhã em Curitiba (Vintage Café).
Os dois shows começam por volta de 23h30 horas, aqui com apresentação também da banda local The Cherry Bomb – que sobe ao palco depois dos ídolos – e na capital com abertura do grupo Hulk. A noitada é histórica, adequada para celebrar as bodas de prata do movimento que nasceu periférico, alcançou garotos da classe média nos anos 80 e foi pulverizado pelo consumo nos 90.
Remanescente da primeira geração, o grupo de Pete Shelley não provocou escândalo como os Sex Pistols nem politizou consciências como o The Clash. Mas suas canções pop de três minutos marcaram os dias gloriosos de anarquia punk no Reino Unido e continuam inspirando bandas por aí. Dos primeiros discos do The Cure ao último álbum do Supergrass, as influências são gritantes.
Todo o punk melódico – de Green Day a Blink 182 – é tributário ao grupo. Também fã, Kurt Cobain exigiu que os Buzzcocks acompanhassem a turnê do Nirvana pela Europa, pouco meses antes de se matar. Para alguns críticos, a permanência da banda é explicada pela sensibilidade pop das letras, calcadas em frustrações amorosas e tédio juvenil.
Outros vêem a força na própria música, que escaparia ao padrão punk básico com a exploração de arranjos menos toscos. Mas o prestígio conquistado pelo grupo não o impediu de sofrer avarias ao longo de sua trajetória. Em 82, a formação se desintegrou ficando oito anos sem gravar discos. Shelley dedicou-se a uma carreira-solo incursionando pelo tecnopop, estilo pelo qual lançou os álbuns ‘‘Homosapien’’ e ‘‘XL1’’.
Diggle montou o grupo Flag of Convenience lançando os CDs ‘‘Secret Public Years 81-89’’ e ‘‘Best of Steve Diggle & Flag of Convenience’’. Recentemente, em 2000, ele lançou um álbum solo chamado ‘‘Some Realitty’’. O retorno ocorreu em 1990, quando os músicos decidiram se reunir para um excursão descompromissada.
Na volta, tocaram em bares minúsculos da Inglaterra e foram percebendo que a platéia crescia a cada show. Durante um breve entra-e-sai de componentes, até o ex-Smiths Mike Joyce passou pela bateria. Em 1995, ao lançar o álbum ‘‘Trade Test Transmissions’’, fixaram Tony Barber no baixo e Phil Barker na bateria completando com os fundadores a formação que vem ao Brasil.
O último disco da banda é ‘‘Modern’’, de 99, não lançado no mercado nacional. Mas, para a surpresa de muitos fãs, chegou às lojas locais no ano passado o precioso ‘‘Time’s Up’’, gravado em apenas um dia e vendido como pirata pelos próprios integrantes. O disco flagra o punk melodioso do quarteto em seus primórdios incluindo inclusive faixas do EP de estréia ‘‘Spiral Scratch’’ e covers de grupos sessentistas como The Troggs e Captain Beefheart.
A importância histórica do disco é comparável à coletânea ‘‘Singles Going Steady’’, que abrange a primeira fase da banda reunindo canções dos álbuns ‘‘Another Music in a Different Kitchen’’, ‘‘Love Bits’’ – ambos gravados e lançados em menos de um ano, entre dezembro de 1977 e agosto de 1978 – e ‘‘Kind of Tension’’ – este considerado por alguns críticos como o melhor trabalho do grupo.
É dessa época os maiores hits da banda, clássicos que talvez sejam cantados em coro pelas platéias brasileiras como ‘‘Osgasm Addict’’, ‘‘How Do I Get’’, ‘‘Innocent’’, ‘‘Do it’’, ‘‘Ever Fallen in Love’’ e ‘‘Everybody’s Happy Nowadays’’. Depois da passagem pelo Paraná, a banda faz shows em Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo.
Show dos Buzzcocks e The Cherry Bomb. Hoje em Londrina a partir de 23h30 no Z3, ex- Kawale (Av. Maringá, 73). Ingressos antecipados à venda a R$ 15,00 na Garageland CD’s (Shopping Pará, tel. (43) 324-9033) e Maha Skates (Shopping Catuaí, tel. (43) 339-2725).
Show dos Buzzcocks e Hulk. Amanhã em Curitiba a partir de 23h30 no Vintage Café (Rua Dr. Muricy, 1.091, Largo da Ordem, tel. (41) 224-4167). Ingressos antecipados à venda a R$ 15,00. Na hora, sobe para R$ 20,00.

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