Heroína dos porões novaiorquinos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de julho de 2000
Nelson Sato De Londrina 
A linhagem dos poetas malditos deixou meia dúzia de herdeiros no mundo do rock. Patti Smith é uma das que mais fizeram juz ao legado, desde que despontou em Nova York recitando versos em porões encardidos no meio dos anos 70.
Na época, uns a chamavam de A Rimbaud do rock, outros de Lou Reed de saias. Seu álbum de estréia, Horses, foi aclamado pela crítica e hoje ocupa lugar de destaque nas estantes dos colecionadores mais exigentes. Depois dele, vieram outros trabalhos de qualidade seguidos de livros de poemas (um volume, Witt, circula no Brasil numa edição portuguesa).
Nesses anos todos, Patti sofreu um bocado. Perdeu marido, amigos, empresário e irmão numa sucessão de tragédias pessoais que seriam posteriormente refletidas em canções doloridas nos álbuns Gone Again e Peace and Noise. Agora ela volta a dialogar com seu público lançando o CD Gung Ho (BMG) acompanhada por uma banda eficiente formada pelos guitarristas Lenny Kaye e Oliver Ray, o baixista Tony Shanahan e o baterista Jay Dee Daugherty (este, junto com Kaye, a acompanham desde o primeiro disco).
Aos 54 anos, Patti continua afiada escarrando seus versos com fúria e sarcasmo. Ao contrário de boa parte dos artistas veteranos, Patti soa atual apoiada por uma base instrumental que prescinde de recursos eletrônicos mas que em nenhum momento descamba para riffs e timbragens anacrônicas. A interpretação intensa em Boy Cried Wolf, o vocal debochado em New Party e a balada-rock Lo and Belolden são algumas das boas faixas do CD, cuja produção traz assinatura de Gil Norton.
Na faixa-título, Patti Smith imprime uma carga de dramaticidade só comparável às performances de Jim Morrison, outro que só acordou seus monstros depois de ler os românticos malditos.


