''Senna'', documentário que estreia hoje no cine Com-Tour/UEL, já tem um mérito por si só. Trata-se de uma produção internacional, o que garante, pelo menos teoricamente, uma certa isenção ao projeto. Se fosse feito por aqui, certamente escorregaria na patriotada ou até mesmo numa beatificação do último ídolo brasileiro da Fórmula 1. Não é o que acontece.
Claro que o diretor inglês (de ascendência indiana) Asif Kapadia trata o personagem com extrema reverência. E não poderia ser diferente, até porque a família do piloto colaborou ativamente com o filme. Mas, nas entrelinhas, percebe-se também o lado, digamos, ''obscuro'' do piloto. Um sujeito meio esquisitão, dono de uma fé cega em Deus e refém das metas que traçou para si.
Dividido em três atos (ascensão, auge e queda), ''Senna'' é inteiramente construído com material de gaveta e pontuado por depoimentos didáticos de especialistas em F1 - que nunca aparecem em primeiro plano. Nesse sentido, o comentarista da Globo Reginaldo Leme surge como uma peça fundamental para a compreensão da trajetória do biografado. E antes que alguém pergunte, Galvão Bueno só ''aparece'' narrando as corridas.
Há, ainda, uma espécie de trama paralela dedicada à rivalidade do brasileiro com o francês Alain Prost. Digna da ficção, essa história tem até um vilão clássico: Jean-Marie Balestre, ex-presidente da Federação Internacional de Automobilismo e ''inimigo'' de Senna fora das pistas. Aliás, a política que envolve o esporte (se é que o automobilismo pode realmente ser chamado de esporte) é outro aspecto que o filme aborda com muita propriedade.
Mas o subtexto mais interessante, ao menos para o público local, dá conta da importância simbólica do personagem para os brasileiros. Ao descrever o contexto do Brasil nos ''anos Senna'', o documentário revela, quase sem querer, que ele foi o herói solitário de um período deplorável para o país.
Seu auge profissional aconteceu entre os governos de José Sarney e Fernando Collor, marcados por planos econômicos desastrados e uma certa frustração com a abertura política. Como se não bastasse, nem a seleção de futebol, numa de suas piores fases, consolava o povão.
''Ele é a única coisa boa do Brasil, né?'', diz uma anônima, em uma imagem de arquivo. Mais emblemático, impossível.

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