São Paulo, 14 (AE) - Aos 63 anos de idade, 49 de carreira e mais de 30 discos lançados no Brasil e no mundo, Hermeto Paschoal faz o primeiro disco em que toca todos os instrumentos: piano, cavaquinho, pandeiro, flauta transversa e de bambu, flautim, bandola, bombardino, triângulo, zabumba, surdo, sax soprano, sanfona, flugelhorn, escaleta e ainda apitos
bonecos (daqueles de criança, com apitinho agudo que soa quando o boneco é apertado), garrafas, panelas com água, assovio, percussão de pés batendo no chão ou mãos sendo esfregadas no corpo. O resultado é o CD "Eu e Eles" - ele e seus instrumentos -, que inaugura o selo fonográfico Rádio MEC. O lançamento oficial do novo trabalho vai ser amanhã, às 21 horas, no auditório da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no Rio.
Em algumas músicas, Hermeto vai tocar piano e percussão, enquanto, no telão aparece sua imagem tocando os outros instrumentos. E, por falar nisso, ele vai apresentar em cena um novo instrumento, que inventou e foi construído por um luthier do Rio Grande do Sul. "É uma mistura de cavaquinho com violino", conta Hermeto. "Não sei ainda se vai chamar cavalino ou cavaquilino, mas tem cinco cordas, umas de violino, outras de cavaquinho, e vai ser tocado com arco", adianta. "Tocado como um violino, apoiado no queixo - pode ser que apoiado na barriga, não sei, ainda não vi", diz, por telefone, de sua casa, no Bairro Jabour, distante subúrbio carioca.
"Já pensou que beleza?" - pergunta, empolgado como uma criança. Hermeto jamais quis abandonar o entusiasmo infantil espontâneo, o maravilhamento com as descobertas, por simples que possam parecer (e, nas mãos do grande músico, nenhum instrumento é simples ou complexo: cada um deles guarda coleção incontável de surpresas, e Hermeto as vai revelando, revelando, revelando - é seu ofício). O título do disco refere-se ainda às personalidades que ele homenageia: os músicos Jackson do Pandeiro, Renato Borghetti, Miles Davis e ainda o papagaio Floriano e a própria Rádio MEC, à qual é dedicada a faixa-título
"Chorinho MEC". Microfones abertos - A Rádio Ministério da Educação, do Rio de Janeiro, tem os mesmos 63 anos de existência que Hermeto Paschoal. Seu gigantesco estúdio, com mesa de 56 canais e acústica sinfônica, foi usado sempre para gravar música clássica (um acervo precioso, que está, aos poucos, sendo lançado em CD). "Eu e Eles" inaugura o selo, que pretende abrir os microfones para os grandes músicos brasileiros - ainda não se sabe qual será o elenco, mas a estréia não poderia ser mais auspiciosa.
A gravadora Rádio MEC é, de qualquer forma, uma gravadora pequena, voltada para público mais exigente. Espera-se que supere os obstáculos da distribuição - fantasma que assombra a vida de todas as gravadoras pequenas. Porque com as grandes gravadoras Hermeto Paschoal anda aborrecido. Com muita razão - nunca foi tratado com a devida importância. Estenderiam para ele tapetes vermelhos se fosse um diluidor como Kenny G. ou seu êmulo brasileiro, Léo Gandelman. Graças aos deuses dos sons, não é. Nestes tempos em que todas as manifestações de rebeldia foram cooptadas pelo establishment, Hermeto é um raro corruptor, infrator, destruidor de regras.
Nos anos 90, o gênio teve apenas um disco lançado, antes desse "Eu e Eles", mas o desdouro não é privilégio destes tempos. Na década anterior, decepcionado com o mundo do disco, Hermeto pedia aos espectadores de seus shows que levassem gravadores e registrassem as apresentações. Até porque nunca seriam, nunca são iguais, mesmo. Exemplo típico do comportamento hermetiano: convidado a fazer o disco, ele escreveu todas as músicas e respectivos arranjos com antecedência. Das 12 previamente compostas, só 3 permaneceram. As outras foram feitas no caminho para o estúdio ou no próprio estúdio. "A cada disco que eu faço, sobram dois ou três", ele confirma. Uma cabeça musical em ininterrupto processo de criação. O calendário do som - A criação não se interrompe, mesmo. Para demonstrá-lo, Hermeto resolveu, entre 1996 e 1997, compor uma música por dia, incluindo a relativa ao dia extra do fevereiro bissexto. Foram 366 músicas, obra batizada de "Calendário do Som", que um grupo editorial de São Paulo ia editar, mas achou grande demais, sugeriu a publicação só da metade - o músico não topou; o Itaú Cultural assumiu a tarefa, mas só para o ano que vem. Em resposta, Hermeto está compondo outra peça gigantesca, uma coleção de choros (um por dia) chamada "Contagem Regressiva". Começou no dia 4 e vai receber ponto final - talvez - na passagem do século.
"Não sei quantos choros vão ser, ainda não fiz a conta, mas já comprei o caderno; agora, se o caderno não estiver completo, no começo do ano 2000, eu não paro, não gosto de caderno com página vazia". Os dez primeiros choros foram escritos em compasso binário, no formato mais tradicional (até onde Hermeto consegue ser convencional e ele mesmo adverte: "O formato é simples, mas só toca quem pode"). Os outros, sabe-se lá.
O "Chorinho MEC", que abre "Eu e Eles", é contado em 7/4, compasso composto: Hermeto acha bom porque dá dízima periódica. É um choro moderno, mas de atmosfera evocativa. "Dei uma passada no passado e o passado me disse: Estou aqui porque você está aí", diz, como repentista - é um repentista quase sem palavras, ainda que adore falar e tenha feito, outro dia mesmo, letra para o clássico "O Ovo", música que compôs para o disco único do Quarteto Novo, de 1967 (ele, Théo de Barros, Heraldo do Monte e Aírto Moreira).
A versão com letra de "O Ovo" está no disco Hermeto Paschoal e sua "Visão Original do Forró", independente, gravado no início do ano, no Recife, ainda não lançado. Quem canta é o humorista João Cláudio, em quem Hermeto descobriu um excelente forrozeiro. Participam ainda Alceu Valença e uma cantora de lá mesmo, Marina - que canta música nova. Cultura planetária - Desde o tempo do Quarteto Novo, Hermeto sempre tocou com grupos. Por "pena dos meninos", nunca quis fazer disco em que tocasse todos os instrumentos - fez piano-solo, mas era piano e só. Agora, o esquema de trabalho mudou um pouco, o grupo já não ensaia todos os dias e o mágico dos sons resolveu realizar o que era um velho sonho. "Eu e Eles" é mais um disco em que Hermeto defende, à sua moda muito peculiar, a universalidade da música. "Sempre falo em música universal, mas o universo da música é no Brasil", dá ele a volta no conceito.
"Eu e Eles" é, portanto, um disco radicalmente de música brasileira que recebe contribuições do conhecimento ritmico, harmônico e melódico dos séculos de cultura planetária. Títulos como "Mercosom" ou "Miscelânea Vanguardiosa" (em que diz, sob o som da sanfona, um texto de sua autoria, meio improviso - um gato voa e cai de pé) são, de qualquer forma, forrós, como é forró a peça "Lembranças", homenagem a Miles Davis ("Ele passou por ali, no estúdio, e disse: Essa é minha"), ainda que possa parecer standart jazzístico, não dos mais convencionais - o flugelhorn soa sobre a harmonia que combina sanfona e canto dentro dágua).
Os bonequinhos infantis, com aqueles apitinhos agudos, fazem solo, harmonia e improvisações do carrossel de "Parquinho do Passado, Presente e Futuro", dedicado às crianças de sempre, numa atmosfera que - prestem atenção - parece gaiata. Mas é só, imensa, emoção.

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