Hermeto lança o 'CALENDÁRIO DO SOM'
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segunda-feira, 28 de agosto de 2000
Mary Persia de Oliveira Agência Estado 
Compor uma música por dia foi fácil a cabeça está sempre a mil compondo, percebendo, processando, multiplicando as idéias sonoras. Registrar as criações é que foram elas. Componho muito mais do que uma música por dia. Mas, chegar a botar no papel, mesmo, só por uma força maior, admite. Felizmente, a força maior veio, tomou (domou?) a alma de Hermeto Pascoal por um ano (de 23 de junho de 1996 a 22 de junho de 1997) e impulsionou-o a realizar o Calendário do Som (Editora Senac/Itaú Cultural, 416 páginas), com lançamento marcado para o dia 1º de setembro. Só atrasei o trabalho quando estava no meio de uma viagem, sem papel, no avião ou num show. Aí, não dava pra escrever mesmo, argumenta o músico.
A força maior foi realmente inebriante: Eu chegava na minha salinha, botava o papel na frente e começava a escrever. E não parava. Atendia o telefone, mas continuava a escrever o telefone também me servia de inspiração. Me acostumei com tudo. Mas, é verdade, há limite para o tudo. Nada me atrapalha, a não ser música ruim. Aí, até paro para esperar o som passar.
O livro, primeiro de sua vida, começou a ganhar corpo quando o multiinstrumentista alagoano completou 60 anos. Num transbordamento de intuição (seria a força maior?), comum em se falando de Hermeto Pascoal, ele sentiu-se predestinado a marcar no papel os sons que brotavam naturalmente em sua cabeça. E assim foi, até as composições somarem 366 e mesclarem-se a ilustrações e comentários do próprio Hermeto.
O resultado é, através de amostras preciosas de seu pensamento, expresso de forma igualmente transparente através dos comentários cotidianos e das músicas, a revelação da alma de Albino Hermeto. Fui muito fiel no que eu fiz aí. Tem coisas que poderiam ser particulares e outras corriqueiras, que a gente fala na nossa casa, de brincadeira. Eu quis mostrar como eu sou compondo, as minhas manias, sem pensar em caprichar. Esse livro poderia se chamar o livro caseiro de Hermeto, considera.
Ressaltando que o livro é uma humilde homenagem a todos nós, pois cada um tem o seu dia, o multiinstrumentista pretende, nos próximos shows, fazer sorteios para a platéia. Vou abrir o livro numa página e alguém que faça aniversário naquela data vai subir ao palco para escutar o grupo tocar a música para ela. Homenagem que se estende a quem nasceu no dia 29 de fevereiro, lembra. A última música é para os bissextos. É um samba. Ficou bem bonita, os bissextos vão ficar contentes, diz, com a simplicidade que tornou sua genialidade tão característica.
O maior desafio de Hermeto, no entanto, não foi a folha de papel mas o medo de ser repetitivo. Mas isso, constatou logo o músico, era devido à falta de prática de documentar tamanho material. Uma das coisas que eu não sabia, por nunca ter feito assim, escrito na minha cabeça, acontece sempre, mas não no papel -, é que é difícil repetir as coisas. Ave Maria! Até há semelhanças mas as coisas nunca são iguais, porque o pensamento nunca é igual. Cada dia é diferente, cada música é uma coisa nova.
A experiência também acabou lhe rendendo mais confiança em si mesmo. Tem que ter cuidado, mas percebi que o cuidado é confiar na gente, não ter medo de nada. É uma coisa linda não ter medo de nada. E também não se pode ter medo de se influenciar, pois o medo mostra que você já está influenciado. Eu sou influenciado por mim mesmo.
Hoje, Hermeto diz que a diversidade de suas músicas, reflexo da diversidade de seus pensamentos, continua presente e cresce a cada dia. Minha música está cada vez mais universal, não consigo nem definir. Já perguntam como eu me defino, e eu não sei. Faço uma coisa hoje, amanhã já estou fazendo outra.
Inspiração para tantas composições, diz que vem de todos os lugares, menos da música. Não me inspiro na música, mas em outras coisas. Não penso em notas. Penso em caminhos e vou escrevendo. Aí, o pensamento vem, e é pior do que soluço, não dá pra parar.
A relação de Hermeto com a teoria musical sempre foi distante. Ele se diz um músico totalmente intuitivo. Até os 14 anos, eu vivia no meio do mato tocando para sapo, cavalo e passarinho que, aliás, são um ótimo público. A teoria só veio depois, conta. Veio, mas não ficou.
Com a vista fraca, o músico acabou antecipando sua decisão de não dar muita atenção às cifras e partituras. Com 16, 17 anos, tive meu primeiro professor de música, que dizia que eu não enxergava nada. Aí, larguei as aulas. Na época, fiquei chateado, mas, mesmo se eu tivesse estudado um pouco mais, tenho certeza de que não iria continuar. A minha cabeça era pra ser como eu sou, mesmo. Aos 64 anos, mestre, para ele, é de outra natureza: Os meus professores são o pensamento, a vivência, a percepção. Tudo o que eu sei fazer, até hoje fiz com a dedução, com o sonho dormindo e com o sonho acordado. Coisa de quem tem sobre sua aura, uma força maior.


