Heresia teatral
Francelino França
De Londrina
Na última sexta-feira, a Cia. de Teatro Belas Artes apresentou no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina, O Arcano, texto, direção e produção de Marcos Santos. Essa é 30ª apresentação da peça, segundo informa o mentor do grupo. A trágica comédia narra a invasão de um demônio num seminário situado na França. Promiscuidade, heresias, milagres e santidade bóiam no panorama maniqueísta.
Santos corre à margem da cena teatral londrinense há 10 anos. Não fez escola de teatro, nem se aventurou em aprender o ofício através de cursos. Nasci com o dom do teatro, diz sem o menor constrangimento. Para escrever O Arcano, garante que levou 8 anos pesquisando, inserindo todas as crenças religosas num único texto.
Antes da peça, o público é brindado com um interminável balaio sonoro ouvindo Boney M. com Rivers of Babylon e o Hino Nacional. Além disso, numa alusão a uma quermesse, o público fica sabendo onde comprar balde de pedreiro. O som estourando em decibéis, agride o público.
A visão cênica levada ao Cine-Teatro Ouro Verde reflete o notório isolamento teatral em que vive Marcos Santos. Apresentando um texto repleto de informações contraditórias, Santos criou um mundo teatral paralelo. O Arcano é o raio-x do desamparo cultural e educacional de um grupo de jovens sedentos pelo calor do hálito da multidão. É o retrato do abismo cultural e social crescente e concreto.
Autodidata, ele criou até um método de trabalho, usado na seleção dos atores para a peça. O diretor contou à Folha2 que nesse método, o ator lê o texto proposto por ele e aquele que conseguir dar a interpretação da maneira desejada por Santos consegue entrar para o grupo.
No release encaminhado à imprensa sobre o texto de terror consta o resumo da história, que se passa num mosteiro no qual acontecem várias atrocidades como homossexualismo, consumo de drogas e misteriosos desaparecimentos. Atrocidade é sinônimo de crueldade e barbaridade, como as cometidas pela Inquisição e pelos nazistas estes inclusive exterminaram homossexuais nos campos de concentração.
Tempo teatral, estrutura dramatúrgica, direção de cena e interpretação são desconhecidos por todos. A anorexia cultural de Marcos Santos é denunciada a cada cena.
Ele estruturou dramaturgicamente o texto num passado distante, mas o túnel do tempo era rompido com temas atuais como a Aids. Numa das idéias que o autor quis compartilhar com o público, o demônio propagava em alto e bom som: não usem camisinhas, não ouçam as propagandas.
As ferramentas do ofício teatral estão mais próximas do grupo do que se imagina. Existe o curso de Artes Cênicas, na Universidade Estadual de Londrina, que oferece 20 vagas a cada vestibular.
A Escola Municipal de Teatro oferece também cursos na área. As inscrições para as próximas turmas começam em dezembro. A Escola Municipal de Teatro fica na Rua Acre, 315, fone (0+XX+43) 323-0945.
Talvez com o segredo e mistérios do fazer teatral aprendidos na escola, os integrantes da Cia. de Teatro possam se deparar com o poder transformador do teatro e o quanto ele pode abrir os canais pensantes e sensoriais.





