Ouvir Dominguinhos é relembrar Luiz Gonzaga. Ao puxar o fole da sanfona e soltar o vozeirão com um largo sorriso no rosto, a imagem do rei do baião é inevitável. E no ano em que se completa uma década da morte de Luiz Gonzaga, Dominguinhos chega ao 44º álbum como o maior herdeiro do legado do mestre e padrinho musical. O disco ‘‘Você Vai Ver o Que é Bom’’, recém-lançado pela gravadora Velas, é o documento desta herança. Começando pela única regravação entre as 14 faixas do CD: ‘‘Moça de Feira’’, de Armando Nunes e J. Portela. A canção foi gravada por Luiz Gonzaga em 1957, com Dominguinhos, na época com 16 anos, tocando sanfona. Não é à toa que o músico presta uma homenagem ao sanfoneiro que tanto o incentivou com ‘‘Prece a Luiz’’, sua parceria com Climério.
Foi graças a Luiz Gonzaga que Dominguinhos, que desde os seis anos já tocava nas feiras livres do interior de Pernambuco, se profissionalizou. Aos 13 anos, foi morar no Rio com o auxílio do padrinho, que o presenteou com uma sanfona, além de sugerir que o músico trocasse o apelido Neném por Dominguinhos. A grande afinidade musical pode ser percebida em faixas como ‘‘Não Prende Minhas Asas’’, ‘‘O Riacho do Imbuzeiro’’ ou ‘‘Bem Querer’’.
Luiz Gonzaga era pernambucano de Exú e filho de Januário, famoso tocador e afinador de fole de oito baixos. Dominguinhos, pernambucano de Garanhuns, também é filho de um famoso tocador e afinador de oito baixos, o mestre Chicão.
Mais do que ser nos últimos anos o grande responsável pela divulgação de gêneros musicais nordestinos como arrasta-pé, xote e o baião, Dominguinhos também conseguiu inovar. A pitada de jazz na cadenciada ‘‘Forrozão’’, com um sax barítono bem tocado por Ubaldo, é uma verdadeira ponte cultural entre Nova Orleans e o Nordeste. O mesmo acontece em ‘‘Nem Pra Tu, Nem Pra Eu’’ - de Azulão, um pescador de Recife - que traz o bombardino de François Ferreira. Dominguinhos ainda mostra que sabe fazer o tradicional com as quadrilhas ‘‘Brincadeira na Ribeira’’ e ‘‘A Quadrilha’’, que conta com a divertida participação do humorista piauiense João Cláudio.
O músico também apresenta as instrumentais ‘‘Relembrando Meu Pai’’ e ‘‘O Xote do Coice’’, com virtuosismo. Grande instrumentista, Dominguinhos ainda tem competência para destilar um humor refinado em ‘‘Fogo e Gasolina’’ e ‘‘Quem Eras Tu’’, ambas em parceira com Nando Cordel. Com arranjos de base feitos pelo guitarrista Heraldo do Monte e arranjos de metais de Proveta, ‘‘Você Vai Ver o Que é Bom’’ é um verdadeiro bálsamo sonoro numa época em que a música brasileira passa por uma safra de muita bunda e pouco som.

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