São Paulo, 31 (AE) - Ao final de cada uma das dezenas de apresentações que os Paralamas do Sucesso fazem todos os meses pelo País, o grupo costuma ser procurado por músicos que tentam entregar fitas demo com a certeza de que fazem um trabalho espetacular e que só precisam de uma mãozinha para estourar nas rádios. As chances de um desses artistas chegar até o grupo, ter o som admirado e ainda conseguir o apoio de um músico do calibre de Herbert Vianna devem ser as mesmas que acertar na Mega Sena. Pois foi exatamente o que ocorreu com o Negril, com uma diferença: além da sorte, eles contam com um trabalho de 20 anos.
"Eles apareciam nos nossos shows já há algum tempo, querendo mostrar o trabalho, mas eu não os conhecia nem tinha tempo para produzir o disco de outro grupo", conta Vianna. "Este ano eu achei que deveria voltar a produzir." O líder dos Paralamas diz que, a princípio, pensou em ajudar o Negril para melhorar a vida dos seis integrantes do grupo. "Mas, depois de ouvir a fita, tive um grande prazer musical."
No texto de divulgação do disco do Negril, eles reproduzem o que escutaram de Vianna depois de ele avaliar algumas de suas músicas. "Ele nos disse que era uma das melhores coisas de reggae que tinha ouvido nos últimos anos", conta o vocalista Valnei Ainê. Vianna conta que procurou interferir o mínimo no trabalho do Negril. "Eles têm coisas muito boas que procurei realçar, trazer para frente", explica. Herbert Vianna diz ter orientado o grupo a evitar letras que só falassem de dinheiro e da pobreza da Baixada Fluminense porque seria "chover no molhado".
Um exemplo é a canção Berimbau, composta pelos seis integrantes e cuja letra fala de seu universo, seus familiares e da Baixada Fluminense: "Vou mostrar pra todo mundo/Do Zé Féli lá da beira/Bom de palha, bom de tudo/É o nosso rei da esteira/Na madeira, Zé Cachimbo/Outro cidadão de ouro/E também seu Otacílio/Com sua viola de 12/Tem o Zoti do Trombone/E o Vinho da Portela/E a Maria Pioneira/ Olha o Rio da Janela." Zé Féli é um artesão de Belford Roxo; Zé do Cachimbo, marceneiro que adorava um cachimbo, é o pai do guitarrista Dida; Zoti do Trombone é o pai do baterista Cosme; Vinho da Portela, pai do vocalista Valnei e Maria Pioneira foi a primeira pessoa a construir uma casa às margens do rio da região.
O próprio Vianna lhes deu uma canção, Pense Bem, uma balada pop que virou a música de trabalho, cujos versos dizem: "Pense bem/No que você vai fazer agora/Se me deixar/O que você ganha em troca/Nada é exatamente/Como você aprendeu na escola/Se deixar morrer/Nada traz o amor de volta." Ele explica por que fez a letra: "Queria uma canção melódica, na qual a voz fosse explorada." Pelo mesmo motivo, sugeriu incluir no disco a canção O Medo de Amar É o Medo de Ser Livre, de Beto Guedes e Fernando Brant. "O Ainê tem uma voz extraordinária que precisa ser evidenciada", diz Vianna.
Uma das músicas do disco que o líder dos Paralamas mais gosta é B.F. (iniciais de Baixada Fluminense), que diz: "No rosto/As marcas de passividade/Mancham o chão/Que covardia/Toda inocência de um bebê doente/Toda inocência que de tanta dor/Não chora mais." A letra é de Dida (guitarra) e Marcelo Yuka, líder e baterista do Rappa. O disco do Negril é co-produzido por Marcos Lobato, irmão de Yuka.
"O resultado é um disco com variedade, mas sem perder a identidade", avalia Vianna. "O grupo tem muita convicção, eles não são moldados por ninguém." O músico não produzia um disco de outra banda desde Plebe Rude. Em 86 e 87, ele conseguiu um contrato para a banda brasiliense e cuidou do primeiro e do segundo disco. O Negril tem contrato com a BMG para fazer dois discos, com opção de mais dois.

mockup