Herança negra se destaca na cultura popular
São Luís - A capital do Maranhão também é chamada de Ilha do Amor, de capital dos azulejos portugueses e de Jamaica brasileira. Não é possível saber se todos os que procuram o amor na ilha dão a sorte de encontrar (como os poetas de outros séculos), mas se sua ambição é conhecer um pouco da história com os trabalhados azulejos portugueses ou dançar como se estivesse na companhia de Bob Marley, São Luís não decepciona. A apenas 2 graus abaixo do Equador, São Luís é uma das três capitais brasileiras localizadas em ilhas e faz divisa com os Rios Anil e Bacanga. Os primeiros moradores foram os índios tupinambás, que lhe deram o nome de Upaon-Açu (Ilha Grande).
A partir de 1612, os nativos precisaram dividir espaço com os franceses, que passaram a chamar a ilha de Saint Louis, em homenagem ao rei Luís XIII da França. Apenas três anos depois, eles foram expulsos pelos portugueses, que começaram de fato a colonização e trouxeram os escravos.
Com uma vida histórica tão agitada, não é de espantar que a cidade tenha sido tombada pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, em 1997. Boa parte desse importante passado está no centro velho, na Praia Grande. A área é recheada de casarões com fachadas de azulejos e sacadas em ferro.
Legado e camelôs - Pela extensão e preciosidade do conjunto arquitetônico histórico (cerca de 3,5 mil prédios, distribuídos por mais de 220 hectares), recomenda-se que a visita leve pelo menos dois dias - ou o turista corre o risco de passar apressadamente pelo centro e deixar de lado construções de história interessante.
Em meio ao requinte de outras épocas, é possível ver algo que soará bastante familiar aos paulistanos: a Rua Grande. Apesar da riqueza das construções, a via é uma espécie de Rua 25 de Março do Maranhão. O mais curioso é ver casarões imponentes tomados por lojas de comércio popular e dividindo espaço com barracas de ambulantes.
Outra forma de conhecer um pouco do passado maranhense sem se embrenhar pelos casarões azulejados dos séculos 18 e 19 é dar uma volta na Lagoa da Jansen, uma homenagem à poderosa Ana Joaquina Jansen Pereira, comerciante que exerceu grande poder na política e na vida social da São Luís do século 19. O Parque Ecológico da Lagoa da Jansen tem restaurantes, quadras poliesportivas, ciclovias, além de um mirante com uma linda vista da região.
Coisas da noite - Os festejos de bumba-meu-boi ocorrem em junho, em louvor aos santos juninos, Santo Antônio, São João e São Pedro, além de São Marçal. Alguns grupos, porém, fazem apresentações para turistas durante os fins de semana. Vale a pena conferir os diferentes sotaques, como são denominadas as formas de brincar o boi.
Para os que preferem uma diversão menos contemplativa, o reggae é a melhor dica. São Luís desenvolveu uma relação muito especial com a música da Jamaica em meados dos anos 70, quando as estações da ilha captavam as ondas de rádio do país caribenho. Não demorou muito para a juventude aderir ao balanço do reggae, que já foi o ritmo mais querido no Estado. Ainda que não seja mais tão difundido quanto antes, não perca a oportunidade de se jogar na dança enquanto estiver por lá.
Cultura negra - Apesar da forte presença européia na região, a herança cultural negra se sobressai na sociedade maranhense. É o que se pode perceber em manifestações populares como a lenda do bumba-meu-boi - a maior festa de São Luís - e o tambor de crioula, além de nas religiões de origem africana, como o tambor de mina.
A encenação do bumba-meu-boi é, na verdade, uma história de amor. Catirina, uma escrava grávida, sente desejo de comer língua de boi - mas não de qualquer um. Teria de ser o Mimoso, o mais bonito da fazenda. Seu marido apaixonado, pai Francisco (nego Chico), mata o animal só para satisfazer o capricho da amada.
Quando o fazendeiro descobre o ocorrido, manda prender pai Francisco, que tenta fugir com Catirina. Para ser perdoado, nego Chico conta com a ajuda de curandeiros, que ressuscitam o boi e, assim, tudo termina em festa. A história é contada com o auxílio de instrumentos como zabumba, pandeirão e matraca, num ritmo contagiante.
Cada boi nasce como o pagamento de uma promessa e recebe ajuda de seus padrinhos, pessoas influentes na região que patrocinam a brincadeira. O boneco é feito de uma armação revestida de tecido bordado e enfeitado de miçangas, fitas coloridas, lantejoulas e canutilhos, e pode custar milhares de reais.
Outra dança muito popular no Maranhão é o tambor de crioula, em que as mulheres são o centro das atenções. Na brincadeira, três tambores são utilizados: o pequeno faz o repicado; o médio, que recebe o nome de meião ou socador, marca o ritmo; e o grande ou roncador marca a umbigada. Umbigada? Isso mesmo. As dançarinas fazem um círculo e uma delas dança no centro, se exibindo para os tambores. A próxima moça a dançar entra na roda, bate a barriga com a que já estava bailando, toma seu lugar e recomeça a brincadeira.
Hora do sagrado - O tambor também é utilizado em uma das mais importantes religiões de origem africana difundidas no Estado, o tambor de mina. As reuniões ocorrem em terreiros e são formadas, em sua maioria, por mulheres. Aos homens cabem as funções de tocar tambores e atabaques. Quando um dos iniciados entra em transe, incorpora entidades e recebe como símbolo da possessão uma toalha branca, que é amarrada na cintura ou no braço. A maior parte das celebrações - até mesmo na famosa Casa da Minas, que fica na Rua de São Pantaleão - não é aberta ao público.
Artesanato - Como divide as Regiões Norte e Nordeste, o Maranhão deu a sorte de reunir tudo de melhor que as duas áreas apresentam: praias maravilhosas e uma riqueza vegetal de dar inveja ao resto do País. É exatamente dessa diversidade de vegetação que nasce a maior parte do artesanato vendido na capital, São Luís.
No Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Maranhão (Ceprama), na Rua São Pantaleão, 1.232, há uma grande variedade de produtos à base de árvores nativas, como a fibra do buriti, que é trançada e se transforma em chapéus e acessórios de cozinha, tudo tingido com outras plantas da região, como a salsa (que dá a cor verde)e o mangue (vermelho).
A cerâmica, em forma de vasos e tigelas, também é um dos pontos fortes do artesanato regional. Apesar de muito belas, as peças dividem as atenções dos turistas com os azulejos, que podem imitar os tradicionais adornos portugueses e revestir mesas e banquetas. O problema é exagerar no tamanho dos souvenirs e ter problemas para embarcar de volta para casa. (T.K./Agência Estado)





