HENRY MILLER, ANGÚSTIA E RISO
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de junho de 2000
Paulo Briguet De Londrina 
Faz 20 anos que Henry Miller morreu e agora ele deve estar dando uma boa risada na minha cara, acredite. Uma vez, diante de um prato de arroz e feijão, num bar e restaurante de esquina que hoje nem existe mais, pensei em Miller como um ideal de ser humano, quase um santo. Ainda penso nisso quando releio seu melhor livro, Trópico de Câncer. O escritor está aqui ao lado: careca, magro, os olhos puxados como os de um chinês, que ficam ainda mais apertados quando ele se diverte. Miller ri dos 20 anos da própria morte pode haver coisa mais idiota que um simples número redondo?
Os livros do cidadão norte-americano Henry Valentine Miller, nascido em 26 de dezembro de 1891 e morto em 7 de junho de 1980, filho de um alfaiate de Nova York e irmão dos angustiados de todos os tempos, são uma dessas coisas boas da vida, um prato de arroz e feijão na esquina quando você está com fome, o primeiro gole de cerveja num domingo de calor, o cheiro de café pronto na cozinha, uma bela garota vindo em sua direção na calçada, dormir ouvindo A Arte da Fuga, a brisa no rosto e nas árvores, uma piada bem contada. Mas as obras de Miller também evocam a dor de cabeça no dia seguinte, a distância e a frieza de quem se ama, o trabalho inútil, as expectativas não confirmadas, a febre, a traição revelada, a conversa do mala, as contas a pagar, a pia entupida, o chuveiro quebrado, o inferno de um casamento, a morte.
Leia mais sobre Henry Miller na página 3.


