"Henrique IV" ganha nova montagem em Curitiba19/Mar, 14:08 Curitiba, 19 (AE) - Dirigido por Antônio Guedes, "Henrique IV", que estréia amanhã (20) no Teatro da Reitoria com a Companhia do Pequeno Gesto, pode ser uma das boas surpresas na programação do 9.º Festival de Teatro de Curitiba. Pouco conhecida fora do Rio, a companhia fundada por Guedes e pela dramaturga Fátima Saad vem investindo seriamente na pesquisa teatral. Além da criação de espetáculos elogiados pela crítica, como a montagem de "A Serpente", de Nélson Rodrigues, a companhia divulga e estimula a reflexão por meio da ótima publicação "Folhetim". Amanhã à noite, a Companhia do Pequeno Gesto promete fazer do teatro um personagem na concepção criada para a peça do dramaturgo italiano Luigi Pirandello. Com nove atores e um músico no palco, Guedes optou por explorar cenicamente a tensão entre realidade e representação, tema que perpassa toda a obra do criador de peças como "Seis Personagens em Busca de um Autor" e "Assim É se lhe Parece". "Henique IV" vai começar na platéia, com os atores chegando para a representação e armando o cenário. Durante o espetáculo, urdimentos e refletores não estarão "invisíveis", ao contrário, todos os recursos técnicos disponíveis serão utilizados de forma bem clara para o público. No caso de "Henrique IV", não se trata de invenção "vanguardeira" de diretor, mas de um recurso de linguagem plenamente integrado à dramaturgia. Fantasia - Encenada pela primeira vez no Brasil em 1956 com grande sucesso pela Cia. Nydia Lícia & Sérgio Cardoso, protagonistas do espetáculo, "Henrique IV" conta a história de um rapaz (Marcos França) que há 15 anos vestira uma fantasia de Henrique IV para participar de uma mascarada. Um tombo de cavalo provocou sua fixação no "personagem" e, para protegê-lo do sofrimento, sua irmã mantém a ilusão, recriando em torno dele o ambiente de um fictício palácio do século 11. Quando a peça tem início, sua irmã acaba de morrer e, seu último pedido, é a manutenção da fantasia que cerca a vida do irmão. Mas ela também pede que ele seja visitado por um médico, o que é feito. O médico (Walte Lima Torres) chega acompanhado de sua mulher Matilde (Claudia Ventura), coincidentemente a antiga paixão do rapaz, ambos vestindo trajes medievais. Apostando na idéia de um trauma pode curar outro, o médico aproveita a semelhança entre Matilde e sua filha Frida (Simone André) e arma uma "cena" para criar a ilusão da volta de "Matilde" jovem, exatamente como na noite da mascarada que detonou a loucura do rei. O problema é que, pouco antes, o "rei" confessara estar curado há 12 anos e o tratamento quase o enlouquece novamente. Embora isso não ocorra, a nova mascarada termina numa tragédia que o obriga a voltar ao personagem e manter a farsa para sempre. Guedes quer aproveitar esse jogo entre ficção e realidade para ressaltar a importância do teatro e, por extensão da própria arte, na vida do homem. "O bonito é poder mostrar com esse texto que na vida não existem dois lados distintos, a ficção e a realidade: a gente convive com o imaginário ou não vive", diz. Em muitas de suas peças Pirandello utiliza a linguagem do teatro para mostrar a fragilidade de fronteira entre ficção e realidade na vida do ser humano. E é exatamente a teatralidade que Guedes explora para encenar "Henrique IV". "A peça é muito divertida, não é uma defesa de tese, apenas exploramos a teatralidade para intensificar a discussão proposta pelo autor". (B.N.)

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