'HENRIQUE IV' É UM DESAFIO
Jackeline Seglin
Enviada ao Rio de Janeiro
A tensão entre realidade e ficção, marca registrada do Teatro do Pequeno Gesto, será levada ao palco no mais novo trabalho da companhia carioca: Henrique IV, espetáculo que estréia hoje no 9º Festival de Teatro de Curitiba. O grupo vai apresentar no Teatro da Reitoria (às 21h30) o que seus integrantes consideram o grande espetáculo e o maior desafio de toda a carreira, iniciada em 1991.
Dirigida por Antonio Guedes, a companhia tem outros projetos que caminham paralelamente às montagens, como oficinas itinerantes e a revista quadrimestral Folhetim (ensaios sobre teatro). Como poucos no Brasil, o Teatro de Pequeno Gesto faz um trabalho com um dramaturgista, que aponta para o diálogo entre a teoria e a prática da obra. E é para o universo de Henrique IV que eles carregam essa pesquisa.
Escrita pelo siciliano Pirandello, a história a ser contada é a de um homem que, numa festa à fantasia com os amigos, cai de seu cavalo, bate a cabeça e fixa o personagem que ele estava representando: Henrique IV, o imperador alemão do século 11. Durante 15 anos, vive mergulhado nesse delírio. Sua irmã tenta criar a sua volta esse mundo em que ele julga viver. Antes de morrer, ela pede a um criado que mantenha a farsa, mas traga um médico para curá-lo. Mais tarde, Henrique revela a seus conselheiros que mantém a fantasia do século 11, mas que não está mais louco há muito tempo apenas se excluiu do mundo.
Em entrevista exclusiva à Folha2, Guedes fala mais sobre o espetáculo e o trabalho desenvolvido por sua companhia no Rio de Janeiro.
Como você e Fátima Saadi trabalharam a adaptação?
É um texto de duas horas e meia de duração que a gente conseguiu reduzir para 70 minutos. Deixamos o essencial para que o público pudesse compreender a história. Esse encontro do Teatro do Pequeno Gesto com o texto do Pirandello está sendo muito feliz, porque na base existe uma semelhança. Desde o princípio trabalhamos a tensão entre a ficção e a realidade. E Pirandello trabalhou em todas as suas obras a tensão entre a forma e a vida.
Nesse espetáculo você dá uma especial importância à palavra?
Prefiro um ator que descubra a intensidade da palavra do que um ator que só tenha a facilidade de dizê-la bem. Evidente que quando há as duas coisas é um prazer. Quando eu digo que a palavra tem o mesmo nível de importância dos outros elementos, não é pela sua dicção, mas pelo que ela representa em cena. Isso foi um exercício do princípio da minha carreira: me atentar para a musicalidade e sonoridade das palavras. Para mim é muito mais fácil a parte visual. Quando eu monto um espetáculo, a primeira coisa que acontece é que eu vejo e não ouço a cena. Se considero os elementos igualmente importantes, tenho que ter uma livre circulação criativa por todos eles.
Em que fase você atentou para isso?
A primeira vez que eu atentei para essas necessidades foi em 1991, numa montagem de Ibsen. A gente elaborou uma oficina de leitura. Ao longo desse período o meu cuidado era com a descoberta da intensidade que cada palavra deveria ter em cada uma das cenas. Desenvolvi uma quase técnica que eu chamava de som de emoção, ou seja, você consegue tornar técnica uma voz emocionada.
Além dos atores, um músico está no elenco. Com que função?
A trilha é especialmente composta para o espetáculo por André Spada, um italiano que toca contrabaixo em cena e compõe todas a músicas, sempre integrado ao trabalho de construção da cena. A gente considera a música um elemento concreto da cena e o músico é um personagem da corte de Henrique.
Até que ponto o diretor Antonio Guedes dá liberdade de criação aos seus atores?
Tento estabelecer um jogo de generosidade e confiança com a equipe. Quem começa o diálogo sou eu. Dou o primeiro pontapé e o ator vai me devolver de outra maneira. Não considero os espetáculos simplesmente meus. Apesar da assinatura, da marca, tem também a qualidade de trabalho do ator, que muda a cada espetáculo.
FICHA TÉCNICA:
Espetáculo: Henrique IV
Texto: Pirandello
Tradução: Aurora Bernardini
Direção: Antonio Guedes
Assistente de direção: Joana Lebreiro
Adaptação: Fátima Saadi e Antonio Guedes
Dramaturgia: Fátima Saadi
Cenário: Doris Rollemberg
Figurino: Mauro Leite
Música: Andrea Spada
Iluminação: Binho Schaefer
Elenco: Alexandre Dantas, Cláudia Ventura, Julia Merquior, Marcos França e outros.
HOJE NO FESTIVAL
MOSTRA OFICIAL
Coro e Camarim Uma Tragédia Rave às 21h30, no Guairinha (Rua Quinze de Novembro, s/nº).
Henrique IV às 21h30, no Teatro da Reitoria (Rua Quinze de Novembro, 1.299).
Anjo Duro às 20 horas, no Teatro do Paiol (Cel. Zacarias, s/nº Praça Guido Viaro Prado Velho).
* Os ingressos custam R$ 20,00.
MOSTRA DOS INCLUÍDOS
Além da Lenda às 21h30, no Galpão 1 (Rua Dr. Faivre, esquina com Nilo Cairo). Ingressos R$ 20,00 e R$ 10,00 (estudantes).
FRINGE
The Game às 18 e 24 horas, no Palace Hotel Costa Brava (Rua Francisco Torres, 384). Ingressos: R$ 15,00 e R$ 10,00 (classe teatral).
Francisco às 18 e 24 horas, na Casa Vermelha (Largo da Ordem). Ingressos: R$ 10,00.
A Terceira Margem do Rio às 18 e 24 horas, no Cleon Jacques (Rua Mateus Leme, 4.777). Ingressos: R$ 15,00 e R$ 7,50 para a classe teatral.
O Lobo e a Lua às 24 horas, no Terraço Memorial (Largo da Ordem). Ingressos: R$ 10,00.
Vincent Asas da Agonia às 12 e 24 horas, no Espaço Cênico (Rua Paulo Graeser Sobrinho, 305). Ingressos: R$ 10,00 e R$ 5,00.A companhia carioca Teatro do Pequeno Gesto encena hoje um texto de Pirandello. O diretor Antonio Guedes fala à Folha2 com exclusividade
DivulgaçãoCena de Henrique IV: personagem em constante delírio imagina ser o imperador alemão do século 11DivulgaçãoAntonio Guedes dirige o espetáculo





