Há quem diga que qualquer vida, por mais ordinária que seja, rende emocionantes narrativas. Em ''Edifício Master'', por exemplo, atualmente em cartaz na cidade, o documentarista Eduardo Coutinho prova que o mais pacato dos cidadãos pode ter uma história repleta de reviravoltas.
E que tipo de história rende a vida de um biografado que, além de cidadão, tem a não muito comum alcunha ''um dos maiores cartunistas brasileiros'' e satirizava os militares em plena ditadura? Inédito na TV aberta, o documentário ''Henfil em Profissão Cartunista'', que a Cultura exibe hoje, tenta resumir, em 60 minutos, a trajetória de Henrique de Souza Filho, o Henfil (1944-1988).
Criador de personagens que entrariam para o imaginário brasileiro como Graúna, Fradinho e Ubaldo, o Paranóico, Henfil teve uma história que trafegava com facilidade entre a comédia mais escrachada e insana, o drama rasgado e uma utópica luta política. Para abarcar tantas saídas possíveis, a diretora, Marisa Furtado de Oliveira, opta pelo caminho da sobriedade ao exibir entrevistas de arquivo com o próprio cartunista e figuras que, de alguma forma, foram ligadas a ele, como Ziraldo, Laerte, Will Eisner (que relembra a rápida e polêmica passagem do ''antiamericano'' Henfil pelos jornais americanos), Zuenir Ventura, Zico, entre outros.
Graúna, considerada a personagem que mais representava Henfil, aparece em versão animada. Do lado humorístico, pode-se verificar que, mesmo em plenos anos 2000, os passos politicamente incorretos de seus personagens ainda podem chocar. As lágrimas ameaçam surgir quando relembra-se a debilitada saúde do cartunista: hemofílico, contrairia o HIV em uma transfusão de sangue, sendo uma das primeiras vítimas públicas da Aids. Completa o tripé o envolvimento com o PT e o movimento operário do ABC nos anos 70.
Especial ''Henfil em profissÃo cartunista''. Hoje, às 21 horas, na Tv Cultura.

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