Hendrix chega à faculdade
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de janeiro de 1997
Luiz Antonio Mello Especial para a Agência Estado 
ReproduçãoJimi Hendrix: sua música virou curso de extensão dos mais procurados em faculdade americana
Conhecida como uma das mais importantes, duras e equipadas faculdades de música do mundo, a Berklee College of Music, de Boston, Estados Unidos (a Harvard da música), fez uma revisão na obra do maior guitarrista de todos os tempos. Até bem pouco tempo, o estilo de Jimi Hendrix era considerado uma heresia errado sob todos os aspectos pelos cobras de Berklee, mas esse centro mundial de referência se rendeu. Jimi Hendrix virou curso de extensão e, entre todos os músicos populares, é o mais procurado pelos alunos. Muitos deles são brasileiros (especialmente de São Paulo), já que Berklee é o sonho de consumo de uma legião de músicos jovens.
O guitarrista brasileiro Maurício Felício, de 19 anos, entrou no ano passado na Berklee, onde vai se formar em engenharia de som. Filho de pais diplomatas que vivem em Nova York, ele mora no campus e estuda uma média de 13 horas por dia, sendo 9 de teoria e 4 de prática. Ele fez a opção pelo curso de extensão sobre Jimi Hendrix e está fascinado: Berklee teorizou toda a técnica do Hendrix, que virou inventor de uma outra forma de guitarra, diz. A mania que ele tinha de usar o polegar fazendo notas no cabo da guitarra, de cima para baixo, ou tocar guitarras sem inverter o encordoamento (ele era canhoto), o aproveitamento que ele fazia das microfonias como linhas harmônicas, solos perfeitos feitos com os dentes, enfim, tudo está sendo estudado na faculdade.
MassacradosOs alunos que estudam em Berklee, um curso que não custa menos de US$ 20 mil por ano, são massacrados por teoria e prática musical ao longo de quatro anos. Felício conta que, na primeira aula sobre Hendrix, o professor mandou que ele escrevesse, numa partitura, a canção Crosstown Traffic. Fiquei completamente alucinado, pois quanto mais eu ouvia a música mais novidades encontrava, afirma. Agora, os professores estão fazendo o contrário, pois passam-nos as partituras de músicas de Hendrix e fazem-nos tocar, garante. É difícil, mas não vou desistir, assegura o estudante, que tem uma guitarra Gibson modelo Les Paul, que graças a convênios de Berklee custou US$ 800. No Brasil, uma guitarra dessas, mesmo usada, não custa menos de US$ 2 mil.
Alunos são
massacrados
por cursos de
teoria e prática
O curioso é que, se hoje, 27 anos após sua morte, Jimi Hendrix fosse estudar Jimi Hendrix em Berklee ia levar bomba. Ele não sabia escrever nem ler música, seu estilo era anárquico, selvagem, primitivo e genial. No campus, quem toca guitarra sabe que Hendrix é o maior de todos, é o grande mestre; já vi muitos guitarristas graduados levarem uma surra na hora de tocar Voodoo Child ou Manic Depression, declara. Estou fazendo esse curso para conhecer a obra dele, mas não tenho a pretensão de chegar perto do que ele fez, admite Felício.
InéditosEnquanto James Marshall Hendrix é dissecado em Boston, no Rio não param de chegar às lojas especializadas remessas de CDs oficiais e piratas com momentos inéditos do músico. Um desses discos, chamado I Wake up This Morning and Found Myself Dead, disputado a bofetões, mostra uma jam no bar Scene, de Nova York, em 1969. Pessimamente gravado por alguém que estava com um cassete na platéia, o disco abre com Jim Morrison invadindo o palco, completamente fora de si, e declamando poemas totalmente desconexos, enquanto Hendrix toca uma base de blues suja e lisérgica.
As lojas especializadas têm de tudo. Hendrix tocando mal (na Ilha de Whight, por exemplo, um mês antes de morrer, por causa de LSD estragado), Hendrix magistral (a íntegra de seu concerto em Woodstock está disponível), Hendrix de todas as maneiras. Tocando só blues, tocando só violão, restos de gravações de seu estúdio Eletric Ladyland, que até hoje é ponto turístico em Nova York. Um atacadista de discos piratas no Rio garante que Hendrix não vai faltar até o ano 2020. Os vendedores ficam impressionados com a faixa etária do público que procura Hendrix. Segundo um deles, os garotos têm entre 14 e 18 anos e muitos dizem que depois de incursões em guitarras mais acadêmicas (apesar de ágeis) como as de Joe Satriani, estão descobrindo a selvageria do instrumento nas mãos do mestre Hendrix. Outro dado curioso: mulheres não gostam do guitarrista. O mesmo vendedor é enfático ao dizer que homens são 99% dos consumidores de Hendrix e as meninas acham sua guitarra muito suja e pesada.


