Com criações inovadoras - como bólides, parangolés e penetráveis - o artista plástico carioca Hélio Oiticica (1937-1980) construiu, em 25 anos de carreira, não apenas uma obra, mas um novo vocabulário de formas, sensações e atitudes para a produção artística contemporânea brasileira.
Atualmente, é difícil encontrar uma mostra de peso que gire em torno de questões estéticas levantadas nos anos 50 e 60 que não conte com uma obra do artista.
Oiticica, que já mostrou seu valor em retrospectiva na Documenta de Kassel no ano passado, tem espaço privilegiado na Bienal, em outubro, além de comparecer em mostras em São Paulo, Rio e Barcelona. Oiticica tratou, com absoluta originalidade, de questões relevantes para a discussão da arte contemporânea, como a relação do público com a obra, a participação do espectador, a autoria do trabalho, o status de obra de arte.
Criou uma arte indefinível, que transita entre performance, arte ambiental, política ou conceitual, sem se prender a qualquer classificação. Para ele, a obra deveria deixar de ser objeto do desejo para ser artífice de todas as experiências sensoriais humanas. Seu objetivo era criar uma arte de vanguarda genuinamente brasileira, mas que incorporasse elementos estrangeiros e que competisse com movimentos internacionais, como as artes pop e cinética.
‘‘Para a criação de uma verdadeira cultura brasileira, característica e forte, expressiva ao menos, essa herança maldita européia e americana terá que ser absorvida, antropofagicamente, pela negra e índia de nossa terra’’, escreveu Oiticica em 1968, em texto sobre ‘‘Tropicália’’, projeto ambiental que inspirou e batizou o movimento tropicalista e que será remontado na Bienal. O projeto entra no segmento que o curador Paulo Herkenhoff chama de ‘‘trajetória da cor’’ na arte brasileira. Ao contrário dos artistas concretistas, com quem iniciou sua carreira, já em seus primeiros trabalhos, os metaesquemas, a cor deixava de ser submissa às linhas e formas para adquirir autonomia. A relação da cor com o meio se intensifica nas obras seguintes, como monocromáticos e relevos espaciais, e passa a envolver definitivamente o espectador em bólides, penetráveis e parangolés.
Nesses últimos, a cor ganha além de espaço, uma dinâmica, já que devem ser usados pelos espectadores-participantes.
O projeto de apropriação ‘‘Sala de Bilhar, d’aprés ‘O Café Noturno’ de Van Gogh’’, montado em 1966 no MAM-Rio, é um dos trabalhos de Oiticica que a Bienal pretende apresentar. A obra consiste de uma mesa de bilhar disposta em um ambiente vermelho.
‘‘Os participantes do jogo vestirão camisas coloridas e jogarão bilhar normalmente: quero com isso fazer vir à tona toda a plasticidade desse jogo único - plasticidade da própria ação-cor-ambiente’’, definiu Oiticica em 1966.
O artista entra na Bienal como um artífice da cor, mas também como representante iluminado da antropofagia, tema do evento. ‘‘Ele próprio discute sua obra em uma perspectiva da sensorialidade, que é transcultural. Ele compreende que sua obra é antropofágica na relação com a cultura do País’’, disse o curador Paulo Herkenhoff.

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