São Paulo, 04 (AE) - Mais de cem músicos vão ocupar três palcos durante quatro dias, fazendo 11 shows diferentes. É a maratona musical do Heineken Concerts, que começa amanhã (05), às 21h30, no Tom Brasil, com o show do pernambucano Lenine e uma legião de convidados all stars, o que inclui o acordeonista Régis Gizavo (de Madagáscar), o cantor e guitarrista Richard Bona (de Camarões), o grupo de repentistas Fabulous Trobadors (da França) e os brasileiros Dominguinhos, Caju & Castanha, Marcos Suzano, Pantico Rocha e Marcelo Bernardes.
Em face da característica de intercâmbio do festival, boa parte dos músicos já está no País há algum tempo. O argelino Khaled, sucesso nas rádios brasileiras com a canção "El Arbi", está há uma semana por aqui e já esteve até no Faustão e na Hebe Camargo. O guitarrista Taj Mahal, verdadeira referência do blues americano, está no Rio há cinco dias, foi ao Mistura Fina e já compôs até uma música inédita sobre o Brasil para tocar no festival. É um leque tão abrangente de atrações que não se aplica à mostra os rótulos de festival étnico ou de world music - até porque o diretor artístico do evento, Toy Lima, não gosta deles.
"O que eu queria é que todos os espetáculos tivessem a comunhão de vários músicos de vários lugares e todos aqui tivessem a consciência de que o que estão fazendo tem a origem na música negra", diz Lima. Segundo ele, no encerramento do milênio uma das poucas verdades é que o que existiu de música neste século foi a música negra. "Nós estamos mostrando que a música da áfrica contaminou todo mundo, depois foi contaminada pelos ritmos que exportou", afirma Lima.
O fato é que o festival é ousado. No ano passado, antes mesmo de estarem no auge de sua popularidade mundo afora, vieram os veteranos cubanos do Buena Vista Social Club, reunidos pelo guitarrista americano Ry Cooder. Neste ano, vêm mais cubanos, também totalmente desconhecidos para o público nacional: o pianista Ernán López-Nussa, a cantora Haydée Milanés (filha de Pablo Milanés) e o percussionista Tata Guines. "Existe a Nova Trova cubana e a Novíssima Trova e eu não me enquadro em nenhuma das duas", disse à reportagem a jovem Haydée Milanés, em entrevista por telefone de Cuba.
Haydée, enquanto os músicos - como seu pai - passaram o tempevolucionáro fazendo uma música "combativa", ouvia Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan e deve causar certo espanto no Tom Brasil, sábado. Revelação - O jazzista López-Nussa, de 40 anos, é considerado uma das maiores revelações da música cubana atual. Toca Schumann e Debussy com a mesma desenvoltura e elegância com que toca o standard Blue Bossa transformado em rumba cubana. Ele prepara um espetáculo no qual usa a voz como instrumento. "De maneira muito mais ampla do que apenas cantar canções", afirmou.
O show da pianista e compositora norte-americana Carla Bley e do seu marido, o baixista Steve Swallow, possibilitam a conexão mais erudita do Heineken Concerts. Carla, ex-mulher do lendário Paul Bley, esteve no Festival de Inverno de Campos do Jordão, mas fez apresentações para pouquíssimas pessoas e isso a deixou meio frustrada. É uma musicista de extrema inteligência e sofisticação.
O festival promove nesta edição um encontro insólito: o da desconhecida cantora holandesa Fleurine com o festejado pianista americano Brad Mehldau, que tem sido comparado a Keith Jarreth pelos críticos. Mas nem Fleurine nem Mehldau são alheios à música brasileira: ela gosta tanto que chega a compor em português. E Mehldau tem demonstrado, nas suas apresentações, que conhece bem o legado de Tom Jobim e João Gilberto.
O Heineken Concerts começou em 1992. Na primeira edição, o festival teve como anfitriões gente como Caetano Veloso, Edu Lobo, Raphael Rabello, Wagner Tiso e Marisa Monte. Nesta edição do ano 2000 há dois "anfitriões" principais: Lenine e Chico César. Chico César vem com três feras brasileiras (Marcos Suzano, Nelson Ayres e Toninho Ferragutti) e uma convidada internacional
a alemã Cora Frost, nova estrela da vanguarda musical berlinense.
Em seu mais recente disco, "Fugu" (1998), a belíssima Cora mostra dominar com elegância a linguagem da música de cabaré e também revela um certo gosto pelo dark side, abordando temas como drogas e sexo. Numa comparação meio tosca, poderíamos dizer que é uma espécie de Tom Waits de saias. O ensaio fotográfico do encarte mostra várias camas de hotéis desarrumadas, coisa que Blixa Bargeld (do Einsturzende Neubaten) fez em uma exposição que correu mundo. Mais estrelas - Já a cantora Mônica Salmaso, revelação do mais recente Prêmio Visa, vem acompanhada de uma banda all stars: Naylor Proveta, Rodolfo Stroeter, André Mehmari e Tutti Moreno. O saxofonista Carlos Malta é outro anfitrião brasileiro, com convidados pouco conhecidos por aqui: os jazzistas americanos Ricky Sebastian e Lawrence Sieberth (de New Orleans) e o Grupo Tríade (conjunto de violão, contrabaixo e violoncelo, do Rio).
Cesaria Evora, que já teve como anfitriões no Brasil os cantores Caetano Veloso e Marisa Monte, volta sozinha. Mais ou menos sozinha: com uma banda de 16 integrantes, composta por músicos cabo-verdianos e cubanos. A organização do festival estuda uma participação no show do arranjador e violoncelista Jaques Morelenbaum, produtor do disco de Cesaria.
O produtor Toy Lima está convencido de que o Brasil é (ao lado dos Estados Unidos) um dos países mais ricos musicalmente do planeta. O motivo é certamente a mesma herança da música negra. Ele conta a história, que leu em uma revista, de um escravo cuja principal incumbência era carregar os instrumentos de uma orquestra. "Um dia ele abriu uma caixa e tinha uma claroneta (uma clarineta baixa, com o mesmo formato do sax) e, em vez de soprar, ele a tocou percutindo as notas, batendo com os dedos", conta Lima.
Essa leitura muito peculiar da música deu ao País uma facilidade em assimilar qualquer ritmo, enquadrar qualquer tipo de coisa dentro de uma certa harmonia, de uma "levada" brasileira. "É muito comum os músicos estrangeiros ficarem mais impressionados com os brasileiros do que a gente com eles, que foi o que ocorreu com Wayne Shorter e Raul de Sousa", lembra o produtor.
Um pouco do ecletismo desta edição do Heineken - com a inclusão de Khaled e seu ra‹ pop, por exemplo - vem justamente do desejo de mostrar a diferença. "O brasileiro conhece muito pouco do pop internacional", diz Lima. "Conhece o americano, que é bom, tal, mas não é o único no mundo".
Alguns dos grupos que vêm são verdadeiras incógnitas (inclusive para críticos), como o grupo francês Fabulous Trobadors. Os organizadores do Heineken os trouxeram por que eles fazem uma espécie de repente europeu, totalmente influenciado pelo repente nordestino brasileiro.
Parte dessa estranheza pode ser conferida no CD "On The Linha Imaginót" (de 1998, selo Mercury, da PolyGram/Universal), no qual misturam línguas e idiomas musicais. Não é só na música que eles se assemelham aos repentistas: seu palco mais frequente são ruas e feiras da França. Uma excentricidade.

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