Eu tinha 19 anos e estava participando de um festival de teatro em Maringá, estava deslumbrado por estar em contato com aquelas pessoas diferentes, com seus cabelos longos, suas roupas coloridas, seus penduricalhos, seus termos complexos e por vezes exaustivos.
Eu, que havia passado toda a minha vida morando na periferia, convivendo com moças suburbanas, destas que adoram ler Julia, Sabrina e Bianca, que usavam Melissa, gel no cabelo, estas que adoravam ouvir Aha e que conservavam em seus quartos de madeira pelo menos três peças da coleção ''Fofolete''... me sentia um peixe fora d'água.
As meninas da minha vila ostentavam um vocabulário franciscano, ejaculavam expressões idiomáticas odiosas como por exemplo: ÊTA NÓIS!
''Eta nóis'' era um diferenciador, apenas as meninas suburbanas usavam ''êta nóis!''. Ficava imaginando se Fernanda Montenegro, Elis Regina ou Bruna Lombardi usavam ''êta nóis'' em seu dia-a-dia. Pra ficar mais claro, quem você acha que usaria ''eta nóis'' com naturalidade: Glorinha Kalil ou Regina Duarte?
Durante o festival assisti a um espetáculo de Bertold Brecht, participei de debates e reuniões onde fiquei sabendo que eu não era suburbano e muito menos pobre, era PROLETÁRIO!! Tudo se modificou em minha vida, graças ao seu Bertold. E eu achando que era pobre... Claro que não! Sou proletário! A coisa soa até melhor, repeti: proletário!
Numa noite acabei ficando com uma menina nos corredores do Ginásio Chico Neto que alojava a rapaziada toda. Uma garota bonita, mas de olhos suburbanos demais, sua roupa denunciava-lhe a origem, seu cheiro, suas palavras. Era uma suburbana, aliás, proletária. Vi que era chegada a hora de mudar meus conceitos. Fosse antes de Bertold Brecht e eu teria deixado a pobre moça na mão, mas era preciso evoluir: Todo poder aos proletários! Sabia que depois de ficar com aquela garota algo de extraordinário me seria ofertado.
Passamos uma noite regada a sexo, Jamel e blues. Ela me chamava de comandante enquanto eu improvisava palavras de ordem em espanhol. Sentia-me como o carinha do livro ''Porcos com Asas''. Apesar de haver pouca luz no local onde estávamos, tive a impressão de que ela se parecia, um pouco com o próprio Bertold Brecht. Num momento de puro êxtase a ouvi balbuciando: ''Eta nóis!'' Proletária, é uma proletária! Ao final do festival nos despedimos. Sob a luz implacável do sol ela parecia muito mais suburbana que proletária, era necessário um esforço hercúleo pra reconhecê-la como proletária.
Acabou-se o festival. Ela se foi. Voltei pra Londrina. Sabia que algo grande esperava por mim. Uma mudança, quem sabe eu entraria pro partido comunista?
Dois dias depois comecei a sentir uma dor horrível durante a micção e embora com pouca experiência na área, saquei que precisava urgentemente fazer uma visita ao Jorginho da farmácia. Acabei a semana na penicilina. A garota proletária me deixara um presente. ''Êta nóis!''

MÁRCIO AMÉRICO é escritor, autor dos livros ''Meninos de Kichute'', ''Corações de Aluguel'' e ''Preciso dar um Jeito na Vida''

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