Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Parte da obra do londrinense será exposta na 3ª Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba no ano que vem, além de figurar num livro. Veja, nesta página, fotos inéditas do poeta da imagem que deixou, ao morrer, um acervo de cerca de 20 mil negativos
A conhecida ironia do destino que faz com que a obra de determinados artistas torne-se famosa, admirada e respeitada apenas após a morte dos respectivos criadores talvez ocupe lugar na biografia do fotógrafo Haruo Ohara (1809 - 1999). Falecido em Londrina em 25 de agosto deste ano, sua obra está prestes a ganhar uma merecida repercussão nacional e internacional.
A abrangência de sua obra não se deve a sua própria iniciativa, ele sempre se recusou a realizar exposições ou vender suas fotos, mas devido a grandiosidade de sua fotografia.
Haruo Ohara estará presente na 3ª Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba, agendada para agosto de 2000, com uma exposição de destaque. Sob curadoria de Orlando Azevedo, a exposição terá 170 fotografias em preto-e-branco, parte delas inéditas. Paralelamente será editado um livro pela Bienal em conjunto com a Fundação Cultural de Curitiba. Previsto para ser lançado durante a Bienal, o livro trará cerca de 100 fotografias de Ohara, textos de Orlando Azevedo (abordando a estética fotográfica) e do escritor londrinense Domingos Pellegrini (enfocando o contexto histórico e biográfico). Além disso, uma de suas obras foi escolhida para ser a capa do catálogo do Festival da Luz do ano 2000, evento internacional que reunirá fotógrafos de países de todos os continentes, e que correrá o mundo.
O fotógrafo Orlando Azevedo conheceu a obra de Ohara através da exposição realizada pelo Festival Internacional de Londrina em 1998, a primeira do fotógrafo aos 88 anos de idade. Sua reação foi imediata: ‘‘É um fotógrafo genial.’’ Alguns meses depois a exposição integrava a Bienal daquele mesmo ano.
No primeiro semestre deste ano Orlando Azevedo permaneceu alguns dias em Londrina pesquisando o arquivo de Ohara como curador da exposição para a 3ª Bienal. Olhou todos os 11 mil negativos (preto-e-branco) e escolhendo cerca de mil. Desses foram selecionados 170, posteriormente ampliados em Porto Alegre no laboratório de Leopoldo Plentz.
Em entrevista a Folha, Azevedo declarou que seu objetivo na curadoria era ‘‘mapear a obra de Ohara oferecendo um idéia mais ampla de sua arte’’. Para ele, a obra do fotógrafo, dentro de uma estética muito desenvolvida, possui certas particulares. Entre essas particularidades estaria o fato de Ohara ter realizado uma documentação histórica de Londrina com um requinte nunca visto, além de oferecer uma visão japonesa sobre o Novo Mundo, em especial a fauna e a flora. Outro elemento importante estaria em sua apurada construção cênica e visual da produção de suas fotos, carregadas de sutilezas associadas a um profundo bom humor, uma sabedoria. Ao lado desses pontos, está o fato de ter desenvolvido sua técnica e estética praticamente sozinho, de maneira autodidata. ‘‘Quando vi os negativos, tive a sensação de ver um tesouro’’, acentua Orlando, ‘‘trata-se de uma obra universal, como ninguém ele cantou a sua aldeia e se tornou universal’’.

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