Havia luz e Haruo Ohara viu que isto era bom. O fotógrafo japonês, que viveu em Londrina (1909-1999), foi capaz de recriar essa luz no branco e preto de suas imagens em que o homem, o imigrante, reina sobre a terra.
A onipotência e a onisciência da obra de Ohara têm o poder de revelar o cotidiano desse homem, que desbravou o mundo praticamente sem forma e vazio do Norte do Paraná, nas primeiras décadas do século XX. Um saber absoluto sobre esse pioneirismo, narrando como se fosse num haikai de imagens o trabalho, o lazer e a família. Eles são os destaques da exposição ''Japão - Mundos Flutuantes'', aberta até 1º de março, na Galeria de Arte do Sesi, em São Paulo.
As obras fazem parte do acervo de Ohara, doado pela família do fotógrafo em janeiro deste ano para o instituto Moreira Salles (IMS). São cerca de 8 mil negativos em preto-e-branco, 10 mil negativos coloridos, dezenas de álbuns e centenas de fotografias de época, além de equipamentos fotográficos, objetos, documentos pessoais, diários e livros. A decisão da família concendeu à obra do fotógrafo salvo-conduto para a eternidade.
''Quando vi a exposição tive a certeza de que tomamos a melhor decisão. Ohara terá vida longa'', afirma o neto do fotógrafo, Saulo Ohara, que veio da Suiça, onde estuda fotografia, especialmente para a abertura da exposição, no último dia 25.
O neto, que cresceu sendo fotografado pelo avô, avalia que a história narrada por Ohara é universal ao retratar qualquer homem que se lança à aventura de povoar novas terras.
É essa terra chamada imagem que Ohara descobriu no Brasil ao imigrar, com apenas 17 anos, e que retratou também nos diários escritos de 1933 a 1994. Textos que ainda precisam ser traduzidos para o português do inglês e japonês, línguas que ele dominava.
''A grande produção fotográfica do meu avô foi entre os anos 40 e 60, com uma temática que para mim era a vida dele e o que estava ao seu redor, principalmente a família e os amigos'', ressalta Saulo.
Um mundo ainda pouco conhecido já que apenas um terço do total dessa produção foi digitalizado pelo IMS. A conclusão desse trabalho, no ano que vem, possibilitará uma compreensão maior sobre o homem que recriou a luz.
O coordenador da Reserva Técnica de Fotografia do IMS, Sérgio Burgi, curador da exposição, coloca Ohara ombro a ombro com fotógrafos do século XX que desenvolveram uma linguagem construída num universo marcante de referências culturais e estéticas, que influenciam o nosso olhar contemporâneo sobre o presente e o passado recente. Nomes como Marcel Gautherot, José Medeiros, Thomaz Farkas e Hans Gunter Flieg e, no exterior, Minor White, Edward Weston, Walker Evans e Ansel Adams - que pertenciam a uma linhagem autoral.
Ohara não tinha a fotografia como profissão, mas tinha, em contrapartida, a liberdade criativa e o lirismo incandescente necessários para gerar vida em suas imagens.
''Ele percebia uma situação de luz e levava para a cena os filhos, a família os amigos. Ohara realizava o desafio de criar imagens de profunda abstração, superando aquilo que o preto-e-branco já tem de abstração'', avalia Burgi.
Nos anos 70, Saulo conta que o avó perdeu amigos, dinheiro e a esposa, passando a fazer fotografias apenas de registro. Doente, ele voltou a falar somente em japonês, mas quando lhe mostravam uma de suas fotos, novamente fazia-se a luz no mundo do fotógrafo, que reconhecia a sua criação.
Além das 160 fotografias de Ohara, a exposição em comemoração ao Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, apresenta gravuras de Ukiyo-ê, datadas dos séculos XVIII e XIX, também pertencentes ao acervo do IMS. A xilogravura de Madalena Hashimoto, baseadas na obra de Ukiyo, dividem a mostra.

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