'HARRY POTTER' CHEGA PARA ENCANTAR
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de novembro de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>De Londrina - Especial para a Folha 2 
Não é novidade: o processo de transposição de obra literária para o cinema é sempre tarefa muito complicada. E a dificuldade é ainda maior quando a adaptação elege como prioridade exatamente a fidelidade à fonte. Quem for assistir ''Harry Potter e a Pedra Filosofal'' (veja a programação de cinema na página 6) com o livro na cabeça, pronto para cobranças até bem detalhadas, vai ter as melhores expectativas recompensadas: o roteirista Steve Kloves - escreveu e dirigiu o delicioso ''Suzie e os Baker Boys'' e o roteiro do recente ''Garotos Incríveis'' - e o diretor Chris Columbus - com uma carreira light onde despontam ''Esqueceram de Mim'' e ''Uma Babá Quase Perfeita'' - obtiveram o melhor resultado que se poderia extrair do mega-best-seller de J. K. Rowling, literalmente sem tirar nem por. Neste caso muito específico, a prudência de não correr riscos desnecessários acrescentando novidades inúteis ao livro se transforma na maior entre outras virtudes, trazendo recompensas a todos. Por que inventar, se o argumento cativou milhões de leitores em quase um terço do planeta?
O filme, que antecipa o clima de férias da garotada, vai encantar crianças e adultos, leitores e não-leitores. É entretenimento consistente e respeitoso ao original, uma agradável e estimulante jornada além dos limites da imaginação.
O fã-clube de Harry Potter está autorizado a pular esta parte, por conhecê-la em minúcias. Mas para quem ainda está chegando agora, o resumo do argumento é guia essencial. No dia em que completa 11 anos, o órfão Harry Potter recebe do inesperado, bom e gigantesco Hagrid um presente que vai mudar sua vida. Morando num armário embaixo da escada na casa dos desagradáveis tios Valter e Petunia, e do mimado primo Duda, ''trouxas'' como todos os que não pertencem à espécie da magia, Harry fica sabendo que era filho de grandes bruxos mortos pelo pérfido hiper-feiticeiro Voldemort, e que tem poderes a serem desenvolvidos.
Para isso é mandado para frequentar cursos especiais no castelo-escola de Hogwarts. É onde e quando começa o melhor da aventura, embora antes da chegada o filme reserve algumas saborosas surpresas, como o misterioso ''Beco Diagonal'' das muitas lojas de feitiçaria e do banco de Gringots, adminsitrado por duendes. Em Hogwarts estão os novos amigos Ronny e Hermione, os ferozes adversários Draco Malfoy à frente, os professores de magias diversas, os perigos, as revelações, os duelos de feitiço à meia-noite, o mal que espreita na floresta proibida, o jogo de quadribol - engenhosa e mortal mistura de beisebol e rolleball -, disputado no espaço aéreo no comando de indomáveis vassouras. E a tal pedra filosofal, segredo sob custódia de feroz guardião singelamente batizado de ''Fofo''.
Roteiro e direção fizeram a coisa certa. Sabendo que tudo no livro era filmável sem o sacrifício de grande coisa quanto a personagens e incidentes, Kloves e Columbus se concentraram na tarefa massiva de condensar o máximo de ação numa narrativa coerente que retém todas as aventuras do livro. E mesmo com a informação precisa de que a atmosfera do livro às vezes se apresenta sombria, os realizadores resistiram à tentação de adulterar esta visão, evitando introduzir elementos genéricos típicos de produtos hollywoodianos infantilóides. Não há um momento tolo ou lacrimoso sequer.
O elenco está a um passo do impecável, com uma fértil mescla de novatos (Daniel Radcliffe como o melhor Harry que se podia esperar, Emma Watson como a precoce e indispensável Hermione e o ladrão de cenas Rupert Grint como o fiel escudeiro Rony Weasley) e a sólida retaguarda de veteranos, à frente a professora Minerva de Maggie Smith e o virulento professor Snape na pele de Alan Rickman. Sem esquecer, óbvio, de Robbie Coltrane como o gigante Hagrid. Suntuosa, a fotografia de John Seale, com irretocável desenho de produção de Stuart Craig (''Gandhi'' e ''O Paciente Inglês''), ambos trabalhando para dotar Hogwarts de intrincados e sombrios detalhes. A trilha de John Williams parece um tanto deslocada, como uma ruidosa, rebarbativa caixa de música que não se consegue nunca silenciar.


