Harry Potter afia os poderes
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sexta-feira, 22 de novembro de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
O que se pode dizer imediatamente sobre este ''Harry Potter e a Câmara Secreta'', o segundo capítulo da saga em mega-lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2), é que é melhor que o primeiro, ''Harry Potter e a Pedra Filosofal''. Mas este juízo primário, embora correto, é raso e reducionista, e, de certa forma injusta, achata as qualidades da estréia do personagem - elas existem em bom número, a maioria discretas, mas ainda assim qualidades - e superestimam as muitas virtudes deste ''Harry Potter e a Câmara Secreta''. O que parece absolutamente fora de questão é que as quatro novelas até agora criadas pela best seller inglesa J. K. Rowling contêm, em graus diferentes, uma espécie de mágica que está além dos poderes que o cinema dispõe para tentar superá-la. E que poderes: frente a frente, decorrido apenas um ano entre uma e outra produção, são notáveis as diferenças operadas pela tecnologia que não pára de assombrar - estes são produtos visceralmente dependentes de doses cada vez maiores de aparatos tecnológicos. Mas apesar de toda a sofisticação e modernidade visual que o dinheiro pode comprar e que aparece na tela com explosivo esplendor, nada substitui a febril atenção do leitor, jovem ou adulto, debruçado sobre os hábeis originais criados pela surpreendente imaginação.
Para o espectador-leitor há três pontos a destacar em ''Harry Potter e a Câmara Secreta''. O primeiro é que está tudo aqui. Além dos personagens cativos e de Hogwarts, é claro. O fantasma do banheiro, as raízes de mandrágora, o diário misterioso, as aranhas, etc, etc. O segundo é que é ainda mais longo que ''A Pedra Filosofal'' - e fica-se imaginando o tempo de projeção quando se adaptar a quarta aventura, ''Harry Potter e o Cálice de Fogo'', com suas 750 páginas! Mas por enquanto os 161 minutos não são excessivos para uma platéia a partir de 8, 9 anos. Para abaixo desta faixa, há o forte risco da dispersão, combinado com o tom frequentemente exasperado da narrativa - é estéril a polêmica em torno da limitação para maiores de 12 anos imposta pela censura no Brasil, já que nos Estados Unidos o filme recebeu a classificação PG (Parental Guidance), isto é, o bom senso deve prevalecer e os mais pequenos não devem ser levados ao cinema. Finalmente, o terceiro elemento a considerar é que Harry Potter está crescendo. E depressa.
Cada nova aventura do feiticeiro, que de aprendiz não tem nada, acontece na Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts. A cada volta ao colégio, depois das férias, novos mistérios e perigos, mais enigmas e suspense. A autora J.K. Rowling não menciona o crescimento de Harry, Ron, Hermione, Draco e os demais alunos. Mas eles estão crescendo. E rápido. Como não há como parar o tempo, e trocar rostos carismáticos seria iniciativa suicida, os personagens continuam crescendo, e com as feições dos atores da primeira hora. Esta é uma das razões - há outras, como o fator adaptação do textos originais - para a já anunciada troca de diretores no próximo episódio, ''Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban''. Em 2003 sai Chris Columbus e entra o mexicano Alfonso Cuarón. Columbus tem reconhecida tarimba para lidar com temas mais ligados à infância, como ''Esqueceram de Mim'' ou ''Uma Babá Quase Perfeita''. Cuarón tem olho clínico para a adolescência, como demonstrou na ótima comédia erótica ''Y Tu Mamán También''. Este crédito, embora não autorize nenhuma expectativa de iniciação sexual dos heróis com base em improvável triângulo amoroso Harry-Ron-Hermione, permite esperar um olhar mais detido na transição rumo à idade adulta, mas sem que isto comprometa o carro-chefe da série, isto é, a fantasia. E se alguém temer qualquer impertinência ou explícita liberalidade por parte de Cuarón, é bom não esquecer que ele também dirigiu com notável sensibilidade o excelente ''A Princesinha'' (1995), e, portanto, tem cacife e autoridade para transitar pela área sem qualquer receio.


