Harrison Ford volta no drama "Destinos Cruzados"
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quinta-feira, 18 de novembro de 1999
Por Elaine Guerini 
São Paulo, 18 (AE) - "Destinos Cruzados" não faz muito pelo espectador: lança-o no doloroso terreno das traições, prometendo destrinchar a gama de sentimentos envolvidos, mas acaba forçando-o a engolir desfecho pouco satisfatório. O maior mérito da produção que entra amanhã (19) em cartaz é o de devolver a credibilidade a Harrison Ford, cuja carreira dava sinais de decadência, principalmente depois do desastroso "Seis Dias, Sete Noites".
Sob a direção do veterano Sydney Pollack, com quem trabalhou em "Sabrina", o astro volta a explorar a faceta de homem íntegro e reticente que nunca fala mais do que o estritamente necessário. A vestimenta é certamente a que lhe cai melhor nos dias de hoje. Aproveita o inegável carisma de Ford como galã cinquentão, poupando-o do constrangimento de bancar o aventureiro. Papel em que o astro não convence mais. Por mais em forma que esteja, parece lhe faltar fôlego para as estripulias do saudoso Indiana Jones. Detalhes sórdidos - Dutch Van Den Broeck, seu novo personagem, é um sargento da corregedoria que descobre tragicamente que a mulher o traía. Ela embarca com o amante em avião que não chega ao destino, aterrisando no fundo do mar (qualquer relação com o boieng egípcio é mera coincidência). Ao descobrir a identidade do "outro", o policial procura a viúva em busca de respostas e de consolo - na medida em que eles compartilham da mesma dor.
Mas Kay Chandler (Kristin Scott Thomas), candidata ao Senado, não está a fim de mergulhar em turbilhão de sentimentos negativos. Ela não quer saber o por que do caso extraconjugal do marido. Nesse sentido, o roteiro de Kurt Luedtke é menos convencional, apresentando o homem com uma atitude mais comum no universo feminino: a de se torturar com os detalhes sórdidos da traição. Aqui, a mulher não banca a sofredora e se mostra prática. Ela só quer virar a página e seguir a vida.
Pena que a história desande na segunda metade do filme. O roteiro dá sinais de honestidade no início, principalmente ao retratar a agonia do protagonista, mas acaba exagerando no verniz hollywoodiano. Sacrifica o que há de bom na trama, a incompatibilidade entre os viúvos que rende diálogos afiados, envolvendo o policial e a deputada emocionalmente. Falta química - Como não há química entre os atores, o romance soa falso e o sexo, mecânico. A união parece mais uma solução fácil para um final pretensamente feliz. Uma simples transa embalada pelo sentimento de desforra seria mais aceitável para o caso. Até porque os demais personagens que contracenam com Dutch e Kay revelam aos poucos que seus cônjuges não eram dignos de muitas lágrimas, principalmente o marido da deputada (vivido por Peter Coyote).
O roteiro ainda poderia ter sido condensado. O drama dos viúvos - aliado às subtramas de corrupção na polícia e bastidores na política - se arrasta por 130 minutos. O filme só não parece mais longo graças à competência de Sydney Pollack, que já provou conhecer o ofício ao longo de mais de 30 anos sentado na cadeira de diretor. O cineasta domina a arte. Mesmo que o roteiro não esteja à altura da técnica.


