HARRISON FORD NA PELE DE UM VILÃO
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de setembro de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Veneza Especial para Folha 2 
Uma das mais populares personalidades artísticas do século, Harrison Ford esteve no Festival de Veneza no fim da semana passada para reforçar os malabarismos mediáticos em torno da exibição do filme na mostra, fora de concurso e em premiSre européia. Veio sem a mulher, no avião dele. E ao contrário de colegas tão famosos quanto, não quis se hospedar no mais distante e reservado Hotel Cipriani, espécie sofisticada de último refúgio da privacidade. Por insistência da Fox, teve que se colocar mais acessível à imprensa, numa ampla suite do Excelsior, um dos mais concorridos espaços físicos do festival.
Foi ali que o ator recebeu a Folha. Às vésperas de emplacar 60, não é particularmente simpático durante a entrevista, o que de resto não é novidade. Parece entediado, e não esconde que é um profissional a serviço do estúdio, um relações públicas a promover mundo afora o produto em lançamento - no caso o thriller sobrenatural e de suspense, Revelação (leia crítica nesta página).
Enquanto responde as perguntas em ritmo de conta-gotas, com voz de baixo profundo sonolento, o ator olha (e suporta) os cinco jornalistas como se fossem insetos inoportunos. O rosto, já brigando com as rugas, é tão amassado quanto o de Indiana Jones depois de enfrentar nazistas, cobras e lagartos. Com as cicatrizes, inclusive. Sobre a eleição de novembro nos Estados Unidos, no comment.
Como é seu personagem em Revelação?
O nome é Norman Spencer, sou um cientista ambicioso e infiel, ciumento da relação entre minha mulher e a filha dela do primeiro casamento. Alguém capaz de qualquer coisa para manter o status social. Neste filme quis surpreender a mim mesmo. Na minha vida privada sou marido fiel e pai atencioso. Em What Lies Beneath , ao contrário, vivo uma história de traição, de egoísmo. Apesar disso, meu personagem é muito mais frágil do que aqueles vividos pelas mulheres, especialmente o de Michelle Pfeiffer.
Então, afinal, um personagem inteiramente diferente dos habituais em sua carreira.
Segundo o diretor do filme, Robert Zemeckis, ele tinha reservado o papel para mim desde o princípio. Quando leu o roteiro, só pensou em meu rosto, para um papel tão complexo, tão abstrato. Compreendi o personagem somente observando a realidade a minha volta.
Revelação é um filme de suspense criminal mas também sobre fantasmas. Para você, eles existem ou não?
Não creio que existam. Na tela fazem parte do jogo, mas na vida não existem. Se existir medo deve ser do futuro, se não controlarmos nossa tecnologia. Sou um homem racional, pragmático. O que me seduziu no roteiro deste filme, e me fascina no dia-a-dia, é o potencial do nosso cérebro, que pode gerar desgraças ou felicidade.
A respeito de sua imagem, com frequência considerada sexy pela mídia e pelas mulheres. Algum comentário ?
Às vezes tenho que conviver em cumplicidade com a mídia. Mas sou uma pessoa não condicionada pelo sucesso de bilheteria, que recusa a violência espetacular gratuita e que sempre busca uma relação de confiança com o público. Somente sob estas condições posso mudar as regras. Sobre ser sexy, não creio que seja.
Você tem algum projeto imediato? Um novo Indiana Jones, quem sabe finalmente ?
Aos 58 anos, me considero um artesão do cinema. Sim, espero voltar a ser Indiana Jones, o que deve acontecer em breve. Tão logo uma idéia luminosa do inventivo George Lucas se transforme em roteiro. Steven Spielberg e eu estamos esperando...
E enquanto isso não acontece...
Faço filmes que gosto, piloto meu avião e me divirto colocando um brinquinho de brilhante. Me considero um homem de inquieta serenidade tibetana, alguém pouco atento à moda e que prefere estar sempre metido em velhos chinelos...


