Harold Bloom: o último dos conservadores
O crítico literário mais celebrado da cultura ocidental morre aos 89 anos
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quarta-feira, 16 de outubro de 2019
O crítico literário mais celebrado da cultura ocidental morre aos 89 anos
Marcos Losnak 
Amado e odiado. Louvado e condenado. Cultuado e desprezado. A controvérsia sempre acompanhou o ensaísta e critico literário norte-americano Harold Bloom. Seus argumentos nunca foram acolhidos com unanimidade, mas influenciaram um grande número de leitores e inúmeros trabalhos acadêmicos.
Com sua morte, aos 89 anos, ocorrida na última segunda-feira (14), a controvérsia está longe de chegar ao fim. Deve seguir sempre viva. Isso porque Harold Bloom (1930 – 2019) acreditava que a literatura era a única possibilidade para a eternidade. E defendeu com todas as forças a tese do cânone literário.
Essa tese é expressa em dois livros de Bloom: “A Angústia da Influência” (Editora Imago, 1991) e “A Anatomia da Influência” (Editora Objetiva, 2013). Seu argumento é que as grandes obras literárias não nascem completamente formadas a partir do nada, mas nascem através da intensa batalha com as obras que a precederam. Ou seja, as obras literaturas mais valiosas seriam aquelas criadas como um ato de rebelião. Um ato estético de combate. A guerra do escritor contra os escritores que vieram antes dele.
Atuando como professor da Universidade Yale ao longo de décadas, Harold Bloom desenvolveu sua tese mais controversa nos livros “O Cânone Ocidental” (Objetiva, 1995) e “O Cânone Americano” (Objetiva, 2017). Nas duas obras seleciona autores que considera os mais determinantes da cultura ocidental, da cultura angro-saxã e da cultura norte-americana. Enfim, os clássicos eternos e superiores. Aquilo que Bloom chama de “alta cultura” que deve ser louvado em detrimento à literatura contemporânea e à literatura orgânica.

No cânone estabelecido por Bloom, há um pequeno espaço, bem pequeno, para um único autor de língua portuguesa: o poeta português Fernando Pessoa (1888 – 1935). Também há a citação de outro lusitano, Luiz de Camões (1524 – 1580). E um único brevemente citado da literatura brasileira: Machado de Assis (1839 – 1908). Ou seja, a literatura de língua portuguesa praticamente não existe segundo os cânones da literatura ocidental.
Harold Bloom viveu como professor, ensaísta e crítico literário conservador. Em seus argumentos, combatia a literatura multicultural, a literatura globalizada, a literatura feminista, a literatura negra, as leituras marxistas, a literatura das minorias e todo tipo de sociologismo literário. Combatia até mesmo os argumentos dos neoconservadores. Para Bloom, tudo isso desviava a atenção da verdadeira essência da literatura em seu propósito original.
De acordo com Bloom, a literatura contemporânea não merecia atenção. Os clássicos seriam suficientes e perfeitos para os leitores de ontem, de hoje e de amanhã. Os clássicos bastariam. O grande exemplo está em “Shakespeare: A Invenção do Humano” (Objetiva, 2000), obra em que analisa cada uma das peças de William Shakespeare (1564 – 1616). A tese é de que o dramaturgo inglês “inventou o homem” ao colocar o homem mergulhado numa relação consigo mesmo. Não mais mergulhado numa relação com Deus os deuses. Em suas palavras, “Shakespeare é Deus”.
Para Bloom, ler Shakespeare é ler tudo que foi escrito depois dele até os dias de hoje. Esse argumento esbarra no fato de que Shakespeare, antes de ser clássico na atualidade, foi um autor contemporâneo em sua época. Ou seja, os considerados clássicos, no passado foram um dia contemporâneos. E, a partir disso, podemos pensar que, quem sabe, a literatura contemporânea de hoje será considerada clássica no futuro.
Nascido numa família de judeus ortodoxos imigrantes da Europa Oriental, Bloom dedicou vários livros ao estudo dos tradicionais textos hebraicos que deram origem à Bíblia. O destaque é “O Livro de J” (Imago, 1992), obra em que o ensaísta comenta, estrofe por estrofe, a parte mais antiga do “Pentateuco” escrito aproximadamente no século 10 a.C. São textos judaicos que deram origem a uma fração dos livros chamados “Antigo Testamentos”, obra básica do cristianismo.
A grande surpresa de “O Livro de J” está em Harold Bloom defender a tese de que os livros mais importantes de “Pentateuco” não foram escritos por Deus. Muito menos por um homem. Foram, na verdade, escritos por uma mulher. Parece uma contradição evidente para um estudioso mergulhado no conservadorismo. Mas é um pequeno sinal que o sol nasce para quem aponta o sol quando ele nasce.


