Nelson Sato
De Londrina
Parece que eles estão tirando uma onda. Parece brincadeira de ensaio. Parece deboche, ironia, pagação em cima do cancioneiro romântico. Mas a combinação de hardcore, ska e letras que trazem versos como ‘‘quem sabe o que é ter e perder alguém / sente a dor que senti’’, é levada a sério pela banda carioca Los Hermanos.
A banda está lançando seu primeiro disco pela gravadora Abril Music. O CD foi gravado no Rio e mixado em Los Angeles (EUA) com produção de Rodrigo Castanho e Rafael Ramos (apresentador do programa Quiz MTV). Traz participação de um naipe de metais em quase todas as músicas e de Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, na canção ‘‘Barbara’’.
Os arroubos amorosos atravessam de ponta a ponta o álbum. ‘‘Tire esse azedume do meu peito / E com respeito trate minha dor / Se hoje sem você eu sofro tanto / Tens no meu pranto a certeza de um amor’’ – diz uma passagem de ‘‘Azedume’’, uma das mais aflitas. A faixa promocional, ‘‘Anna Julia’’, traz melodia sixtie de bailinho e letra derramada.
É uma exceção, espremida entre levadas ska e torpedos hardcore. Todas as composições revisitam a temática das dores-de-cotovelo. Esse contraste é a marca distintiva da banda. ‘‘O mais interessante de nosso trabalho talvez seja justamente essa dicotomia entre a alegria do som e a tristeza dos temas’’ – nota o tecladista Bruno Medina, em entrevista por telefone.
Segundo ele, a inspiração de Marcelo Carmelo (letrista de 12 das 14 faixas) para compor, vem em grande parte de marchinhas de Carnaval e sambas cariocas dos anos 20 ‘‘que ele sempre ouviu’’. Além dos dois, o Los Hermanos conta com Rodrigo Amarante (flauta e voz), Patrick Laplan (baixo) e Rodrigo Barba (bateria).
Antes de gravar o disco, o quinteto já havia lançado duas demo-tapes desde que surgiram em 97. Para o CD, migraram cinco músicas da primeira fita e cinco da segunda. ‘‘Anna Julia’’, que já está tocando nas rádios, foi uma das quatro novas gestadas em cima do palco. O convite para a gravação do álbum surgiu uma semana depois da apresentação do grupo no festival Abril Pro Rock, no qual foram um dos principais destaques.
O nome da banda revela a opção inicial dos músicos, que se identificavam com a música latina, um elemento ainda presente no trabalho – caso do trecho de bolero que abre o CD e a forte presença dos metais em quase todos os arranjos. De dois anos para cá, porém, as mudanças na formação fizeram com que o som do grupo ganhasse em peso adotando as batidas aceleradas do hardcore e as guitarras rítmicas do ska.
A receita, aliada ao romantismo descarado das letras, soa forçada ao primeiro contato e divertida depois de duas audições. Parece milagre, mas no vocabulário dos rapazes não constam palavrões e outras expressões impublicáveis. Será que a geração 90 do rock nacional vai finalmente pendurar o spray na porta do banheiro do colégio?

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