O símbolo da cultura ocidental abre as portas em país muçulmano
Maranúbia BarbosaEntrada do Hard Rock de Amã: culturas diferentes se encontram no templo dedicado ao rock-n’-roll

Maranúbia Barbosa
De Amã para a Folha2

Seria um pássaro? Um avião? Nenhuma das alternativas está correta. O globo no alto do prédio dissipa toda e qualquer dúvida. A inscrição ‘‘Save the Planet’’ assina em baixo e confirma. É ele mesmo: o Hard Rock Café. Mas a paisagem em volta do prédio confunde, nada de pubs ou fog na hora do rush. Nenhum sinal dos ônibus de dois andares. Os guardas da rainha e o palácio de Buckingham estão a milhas daqui. O céu riscado por tons de vermelho, a baixa umidade do ar e um calor senegalês em solo jordaniano atestam: você está em Amã, a capital do Reino Hachemita da Jordânia.
Mas o que faz o ícone-mor da cultura ocidental em terras do rei Abdullah? O Hard Rock Café, marca registrada da contracultura, grito de guerra dos adolescentes pós-Woodstock espalhou seus acordes pelos quatro cantos do mundo e conseguiu aquilo que muito canditado a Nobel da paz queria: promoveu o encontro (pacífico?) de culturas diferentes. É fato que nos Hard Rock, espalhados desde Londres até Hong Kong, de Houston a Kuala Lampur, todas as tribos se encontram e podem ouvir e falar do símbolo profano do seu culto: o bom e velho rock-and-roll.
Seria a presença do Hard Rock na Jordânia uma demonstração legítima da boa vontade do Ocidente para com seus concidadãos orientais? Errei eu, erramos nós. A instalação desse café em um país monárquico, muçulmano e conservador é sinal dos tempos. É ela, a mãe de todas as teses contemporâneas, a famigerada globalização que bate à porta de um dos últimos bastiões da cultura mundial. A Jordânia exibe um cenário esdrúxulo, que mistura rebanhos de carneiro dando passagem às reluzentes BMW, ante o olhar embasbacado do condutor de camelos. Pelas ruas de Amã estampam-se outdoors anunciando os últimos booms da tecnologia japonesa, grifes italianas, refrigerantes, hambúrguer e pizza norte-americanas.
Mas o máximo do fenômeno globalização está na presença do Hard Rock ali, nas barbas dos sheiks, em pleno Oriente Médio, onde o coração árabe pulsa mais forte. Deve-se a música em sua manifestação menos convencional este feito sem precedentes. Desde seu advento na década de 50, o rock-n’-roll combina trinados democráticos. Houve espaço para pretos e brancos, para gregos, troianos e baianos. De Chuck Berry a Elvis Presley, dos empoados Beatles aos descompostos Rolling Stones, os sons contudentes do rock ecoaram por onde pudesse o som se propagar.
Vindo ao mundo o rock, jovens de oito a oitenta verões já tinham como se esquentar melhor. Faltava apenas um espaço adequado, um lugar onde a moçada pudesse ouvir as guitarras na potência sonora máxima e, sobretudo, girar a cabeça e chacoalhar o esqueleto sem o olhar reprovador daquela camada repressora da sociedade, que podia ser o vizinho do apartamento de baixo, ou até mesmo os incorformados pais. Foi em defesa de todos os roqueiros que Peter Morton e Issac Tiggret, dois americanos em Londres, abriram um bar despojado. Era 14 de junho de 1971. O bar foi batizado de Hard Rock Café.
Seguindo a linha do original londrino, o H.R.C de Amã, decora seu interior com guitarras, roupas e objetos pertecentes aos nomes mais festejados do rock. Uma camisa justa de Elvis Presley, pôsteres autografados por John Lennon, pantalona da Madonna e guitarra de Eric Clapton estão pelas paredes. Acima das cabeças dos frequentadores está suspensa sua majestade, uma moto Harley Davidson, objeto de desejo todos aqueles que têm ou já tiveram dezoito anos. Um telão com videoclips mostra cenas de rock explícito, em slow-motion, take to take. Garotos e garotas de ótima apresentação pessoal, devidamente paramentados, peitos ornados por buttons mil, servem as mesas em um apurado inglês e põem na boca quando, afinadérrimos, dão um show na pista de dança.
Vinte e oito anos depois de sua criação, o Hard Rock transformou-se num sucesso empresarial, com mais de oitenta franquias abertas em países de todos os continentes. Somente na América do Norte existem mais de cinquenta, enquanto a Europa os H.R.C. não somam nem dez. O grande filão do momento é mesmo a Ásia, que se abriu de vez para a cultura ocidental. Comer sanduíche com fritas e ouvir rock virou moda em Xangai, Tóquio e Cingapura, além de outras cidades populosas da Ásia.
Frases como Save the Planet (Salve o Planeta) e love all, serve all (Ame todos, sirva a todos) fazem parte do lema do bar, que arrecada milhões de dólares todos os anos em prol de causas humanitárias.
O Oriente Médio foi a região mais resistente à abertura do Hard Rock, principalmente por causa do Islã. Apesar disso, a franquia abriu as portas em Beirute, capital do Líbano e em Telaviv, Israel. Em agosto de 1997, foi a vez de Amã, que ganhou o restaurante no bairro elegante de Abdoun, o metro quadrado mais caro da cidade. Com um projeto milionário, os arquitetos se inspiram em Petra, cidade turística da Jordânia, para criar um edifício que ocupa mais de 2 mil metros quadrados de área. Entre os frequentadores do bar estão membros da família real do país.

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