São Paulo, 28 (AE) - Palco do Festival Internacional de Curtas - o nono foi realizado em agosto do ano passado -, o Espaço Unibanco de Cinema sempre teve um carinho todo especial pelo formato. "O curta é a grande oficina para quem quer fazer filmes", diz Adhemar Oliveira, o agitador (e organizador) do espaço. Oliveira está agora realizando um sonho. Sexta-feira começa o programa "Curta às Seis", que vai mostrar diariamente
de graça, às 18 horas, na sala 4 (do anexo do Espaço Unibanco), a produção brasileira de curtas-metragens. É mais uma opção para a happy hour do paulistano.
O projeto começou a tomar forma em outubro de 1998, quando Oliveira inscreveu o "Curta às Seis" na Lei Mendonça. Aprovado o projeto, ele se lançou em janeiro deste ano à procura de patrocínio. O Unibanco encampou a idéia e o "Curta às Seis" chega agora ao público na forma idealizada por Oliveira. Até abril do ano que vem, serão realizados 24 (ou 26) programas formados por quatro curtas cada um. Eles serão exibidos inteiramente de graça durante duas semanas.
O primeiro programa é formado pelos curtas vencedores do festival do ano passado: "O Trabalho dos Homens", de Fernando Bonassi, "Náufrago", de Amilcar Claro, "Amassa Que Elas Gostam", de Fernando Coster, e "A Hora Vagabunda", de Rafael Conde. A partir da segunda edição, os programas serão tematizados, agrupando curtas por temas. O primeiro programa temático vai tratar de futebol, exibindo: "Decisão", de Leila Hipólito, "Cartão Vermelho", de Laís Bodansky, "Uma História de Futebol", de Paulo Machline, e o melhor de todos, "Barbosa", de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado.
Houve um tempo em que não havia produção de longas no País (ou eles eram escassos). Foi a época áurea dos curtas, que se transformaram na vitrine da produção brasileira. Com a retomada dos longas, os curtas não saíram de cena, mas encontram mais dificuldade para circular. Oliveira revela sua intenção: o curta precisa de um circuito especial para ser visto. Festivais e televisões são algumas formas de acesso a esse tipo de produção cinematográfica, mas não as únicas.
"Curta às Seis pretende abrir espaço para a exibição de curtas, possibilitando a visibilidade de realizadores que ainda não possuem um circuito de exibição contínuo nos cinemas e também pretende atingir o público que não tem acesso a esse tipo de formato", ele explica.
"O Trabalho dos Homens" talvez seja o melhor curta do primeiro programa. Realizado por Fernando Bonassi, roteirista de "Um Céu de Estrelas", dialoga com o belo filme de Tata Amaral ao mostrar os dois atiradores da polícia que chegam para intervir na ação daquele filme, liquidando o namorado enlouquecido que mantém a personagem de Leona Cavalli como refém. Bonassi mostra os dois homens que tomam posição e se preparam para atirar, enquanto discutem trivialidades como o fato de um deles ter faltado a um jantar de casais da noite anterior.
Bonassi foi chamado de fascista ao mostrar o filme num festival na Alemanha. "Eles não esperam da gente um tipo de cinema urbano como esse; ainda esperam a folclorização da miséria", conta o diretor. Mas ele não tem do que se queixar: seu curta foi o melhor de Gramado, no ano passado, e também ganhou os Kikitos de direção e roteiro naquela mostra. Também recebeu o prêmio de roteiro no 8.º Cine Ceará, o Sol de Prata no 14.º Rio Cine Festival e o prêmio de melhor curta, além do da crítica no 2.º Encontro Brasil-Portugal de Cinema, realizado em Portugal.
Os demais não são menos interessantes. Realizado para as comemorações do centenário de Belo Horizonte, "A Hora Vagabunda" supera seus objetivos institucionais pela forma simpática como o diretor Conde conta a história de um grupo de terroristas imaginários que age na capital mineira. Num outro tom, "Náufrago" baseia-se num fato real ocorrido no Caribe e mostra o sobrevivente de um naufrágio que dialoga (melhor seria dizer briga) com Deus e o mundo enquanto sofre fome e sede. É feito com apuro técnico que ajuda a entender por que o diretor foi escolhido para prestar assessoria à estréia da atriz Florinda Bolkan na direção (no inédito Eu Não Conhecia Tururu).
Finalmente, mesmo estando longe de ser o melhor, "Amassa Que Elas Gostam" talvez venha a ser o mais surpreendente para o público entre os filmes do primeiro programa. Afinal, não é sempre que se vê um filme sobre uma mulher, com medo de envolvimentos afetivos e sexuais, que fica obcecada por um boneco de massa que "interpreta" filmes eróticos de animação. O curta de Fernando Coster também ostenta uma respeitável bagagem de prêmios. Entre outros, o de melhor curta nacional no Festival Mix Brasil de 1998, o de melhor filme e atriz (Malu Bierrenbauch) no Festival de Brasília do ano passado e o de melhor filme (júri popular) e melhor atriz no Festival de Vitória, também de 98.
Os demais programas ainda estão sendo formados. Realizadores interessados em obter mais informações ou em participar da programação do horário podem entrar em contato com Humberto Neiva nos telefones 011.289.4792 e 288.4591.

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