'Happiness' é fina ironia
Produção independente, o filme ganhou em Cannes-98 o Prêmio da Crítica e status de cult
ReproduçãoCena de Happines: personagens em busca da felicidade aparecem em situações em que a comédia brilha com naturalidadeFoi a grande, melhor surpresa na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes ano passado. Visto, admirado e ungido à boca pequena, Happiness (confira na programação de cinema) saiu das concorridíssimas sessões do Palais direto para a glória, e seu diretor, Todd Solondz, confirmado como um dos mais interessantes talentos da safra indie ainda não contaminada pela main stream hollywodiana - uma concessão estratégica feita à Universal para garantir ao filme maior autonomia internacional acabou punindo a produtora Good Machine, que se viu de repente à pé porque os executivos da multinacional ficaram assustados com o lado dark do comédia.
Na aparência, uma família típica da suburbia chic de New Jersey. Todos bons e leais americanos. As três irmãs Jordan estão também atrás de felicidade. Joy insiste que vai de bem a melhor, mas ainda não encontrou o que procura: o homem perfeito. Trish, a caçula, é casada e lamenta que Joy não vai ter tudo que ela tem. Quanto a Helen, autora de best-sellers, se afunda mais e mais numa angústia que somente pode ser aliviada por algo novo. Enquanto isso, os parentes ao redor vão descobrindo que os bons tempos já não são tão bons assim. Mona confessa a um agente imobiliário que, na sua idade, ela precisa se divorciar. Lenny é fascinado pela idéia da morte, mas extremante saudável para lidar com o assunto. E há ainda o marido reprimido de Trish e o filho adolescente, que quer apenas ser normal. E o estranho vizinho de Helen, sempre caindo acidentalmente sobre ela. E no curso para adultos onde Joy é professora, um motorista de táxi russo persegue o sonho americano, enquanto a obesa e solitária Kristina acalenta um segredo. De repente, um telefonema anônimo, uma inquietante visita à casa do psiquiatra e tudo muda...
O roteirista-diretor Solondz solta corajosamente sua câmera à maneira do Altman de Nashville, Cerimônia de Casamento e Short Cuts e entrelaça problemas e excentricidades em diversas histórias e através de diversos personagens. O resultado é uma peça de ironia fina, com personagens originais, a um só tempo sérios e engraçados. O humor fresco e não raro devastador vem não de textos preparados para fazer rir, mas de situações acuradas onde a comédia brilha com naturalidade. Mesmo quando o espectador partilha da dor de alguém que está sob a mira da câmera. E no momento em que se teme que o próximo plano será caricatural, triunfa de princípio a fim o amplo painel de personagens descentrados tratados com abertura e honestidade. São personagens às vezes perigosos, gente que não se quer na verdade encontrar. O que Solondz faz é tomar estes seres extremados e trazer até nós retratos de pessoas que, no momento, não são felizes. Pessoas que buscam fragmentaria mas persistentemente um vislumbre dessa felicidade.(C.E.L.J.)





