“Hamnet” : a tragédia antes das tragédias
Jessie Buckley e Paul Mescal são os protagonistas do filme de Chlóe Zhao e fala sobre a tragédia que inspirou famosa obra de Shakespeare
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Jessie Buckley e Paul Mescal são os protagonistas do filme de Chlóe Zhao e fala sobre a tragédia que inspirou famosa obra de Shakespeare
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a Folha 

O grande Laurence Olivier, que entendia de Shakespeare como ninguém, falou há muito tempo sobre um famoso grito que deu em cena, aparentemente arrancando os próprios olhos em uma montagem de “Édipo Rei” de Sófocles, em 1946, portanto há quase cem anos. Ele pensou em animais em armadilhas. "No Ártico, eles colocam sal e o arminho vem lamber", disse ele. "E sua língua congela no gelo. Pensei nisso quando gritei como Édipo".
Há uma sugestão disso no lamento de Jessie Buckley, interpretando Agnes Shakespeare, enquanto a personagem tenta absorver a morte do filho de 11 anos na devastadora adaptação de Chloé Zhao de “Hamnet: Um Romance da Peste”, escrita por Maggie O'Farrell em 2010. O filme está em lançamento em Londrina e em todo o país partir de hoje, 15.
Há muito mais para admirar neste filme belamente filmado e cruelmente cru; no entanto, com alguma razão, a maior parte da conversa será sobre a protagonista feminina. É difícil pensar em outros intérpretes que consigam expressar, sem pudor, tamanha torrente de lacerante emoção simulada. Mas a técnica sempre prevalece. Uma das maravilhas aqui é que Buckley, ungida domingo último com o Globo de Ouro (e com o horizonte limpo para o Oscar), oferece tanto sem oferecer demais. E é aí que a dor de sua perda ganha contornos inimagináveis.
Antes de chegarmos lá, temos um encontro bucólico entre o William Shakespeare de Paul Mescal, então um professor de latim em dificuldades, e o espírito instintivo da terra que este projeto imagina que Agnes Hathaway (em outros trabalhos, frequentemente Anne Hathaway) tenha sido. Nós a vemos pela primeira vez enroscada sob uma árvore, como uma raposa que descansa após uma caçada bem-sucedida.
Zhao, que escreveu o roteiro com O'Farrell, está convidando o espectador para um salto que pode exigir demais da porção cínica da plateia. Agnes, que tem o hábito de invocar falcões do ar puro, está conectada à floresta por um impulso feminino primordial que remonta às bruxas ancestrais e avança através das canções de Sandy Denny e das mulheres do terror folclórico cinematográfico. O diretor de fotografia polonês Lukasz Zal, indicado ao Oscar por “Ida” e “Guerra Fria”, permite que as locações galesas absorvam sua umidade lacustre em cada fotograma, sempre convidativo.
Will, que passará grande parte do filme na Londres malcheirosa, é mais uma figura do início da modernidade: prático, contido, pouco expressivo. Dificilmente se pode imaginar uma escolha de elenco melhor do que Mescal. O rosto de Buckley tem uma destreza muscular que praticamente consegue se virar de cabeça para baixo. A firmeza de Mescal, em seus melhores momentos, levanta mais perguntas do que responde.
As famílias do casal não estão contentes com a união, mas os dois se casam mesmo assim, e Agnes dá à luz primeiro a Susanna e depois aos gêmeos, Judith e Hamnet. Enquanto Will experimenta o sucesso na capital inglesa, a peste bubônica – o admirado romance de O'Farrell foi, apropriadamente, publicado no ano da pandemia – se espalha em direção a Stratford e acaba levando o pobre Hamnet aos cuidados dos pais.
O terço final é onde o filme realmente intensifica seu impacto emocional, mas também é onde algumas falhas notáveis surgem. Uma cena em que um Will desesperado recita o solilóquio mais famoso de Hamlet para o Tâmisa é um tanto óbvia, semelhante ao herói de uma cinebiografia de rock ouvindo alguém pronunciar o título de um sucesso ainda não escrito.
De fato, os esforços para conectar a tragédia pessoal com o conteúdo da peça – "Hamnet" e "Hamlet" eram, como explica uma legenda, essencialmente o mesmo nome – acabam se mostrando um esforço excessivo. Mas a tensão que vai se dissipando aos poucos entre uma Agnes atormentada e um Will frequentemente distante, tanto literal quanto figurativamente, confere à última meia hora uma pungência extraordinária.
Alguns críticos – se assim podem ser chamados – reclamaram que “Hamnet” é pouco mais do que pornografia da dor. Bem, apenas no mesmo sentido em que “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio De Sica, era pornografia da pobreza e “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, era pornografia da insanidade... A dor é e será sempre um tema apropriado, e aqui é tratada com imensurável dignidade. O final de Hamnet continua sendo belamente concebido. Nada assim tão terno poderá ser facilmente descartado ou esquecido.


