Hambúrguer para acampamento
Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha 2
As pessoas escalam o Everest e escrevem um livro. Atravessam o Atlântico num veleiro e escrevem um livro. Percorrem a Antártida e escrevem um livro. Atravessam o deserto do Saara e escrevem um livro. Pedalam até a Patagônia e escrevem um livro. Cruzam o rio Amazonas a nado e escrevem um livro. Andam do Oiapoque ao Chuí e escrevem um livro.
Tudo indica que as aventuras naturais tornaram-se uma prática comum no mundo atual e, para que ela tenha sentido, é preciso contá-las aos outros. Não se trata simplesmente de enfrentar o desafio, mas, depois de superá-lo, escrever um livro sobre a experiência. Em alguns casos, a aventura só adquire sentido e legitimidade se convertida em livro. O resultado é uma montanha de livros relatando experiências em aventuras naturais, sejam radicais ou não. Todos se transformam em heróis, na vitória, na derrota.
Uma Caminhada na Floresta, livro de Bill Bryson lançado pela Editora Companhia das Letras, é um desses relatos. O autor conta sua experiência em percorrer a lendária Trilha dos Apalaches - a trilha florestal mais longa do mundo, com 3 mil quilômetros de extensão, contando doze estados da costa atlântica dos Estados Unidos.
Uma Caminhada na Floresta seria mais um livro sobre uma longa caminhada com os pés cheios de bolhas e outras coisas se não fosse o contexto bem humorado em que foi escrito. Longe do purismo dos aventureiros que fazem de tudo para serem fortes e corajosos, o autor e seu companheiro de viagem realizam caminho inverso. No meio da floresta não pensam em outra coisa senão conseguir um pouco do conforto da civilização. Em qualquer oportunidade, abandonam a trilha da mata e pegam um taxi em direção ao hotel mais próximo. Tomam um bom banho quente, mandam as roupas para a lavanderia e enchem a pança de hambúrguer, doces e coca-cola. Após uma noite de sono numa confortável cama, apanham outro taxi e voltam para a trilha, no local onde pararam.
Bill Bryson é um viajante experiente que, com sua avantajada barriga, resolve percorrer a pé os 3 mil quilômetros da Trilha dos Apalaches em plena selva. Convida dezenas de amigos para fazerem parte da aventura, mas todos renunciam ao convite afirmando ser uma aventura para jovens. Todos menos um, Stephen Katz, um sujeito obeso de 44 anos de idade, ex-alcoólatra, ex-usuário de drogas, viciado em doces, refrigerante, hambúrguer e televisão, em especial o seriado Arquivo X.
Antes de iniciar a aventura, Bill Bryson já prevê o cotidianos da caminhada ao lado de Katz: Temos tudo em comum. Estamos com 44 anos de idade. Vamos conversar sobre hemorróidas e dores nas costas, e como não conseguimos lembrar onde botamos as coisas; e na noite seguinte eu vou dizer: Ei, já te falei sobre minhas dores nas costas?, e ele vai responder: Não, acho que não, e começamos tudo de novo. Vai ser ótimo.
Mas a presença de Stephen Katz é responsável pela novidade do relato de Bill Bryson em Uma Caminhada na Floresta. Ele é responsável pelo contexto irreverente da aventura. Logo nos primeiros metros da caminhada, por exemplo, Katz joga fora quase todo o conteúdo de sua mochila irritado com o peso. O cansaço e as bolhas nos pés passam a dar origem a reflexões como essa: Ao deixar o mundo higiênico e protegido das cidades e ir para as montanhas, você passa por uma série de transformações - uma espécie de descida suave até a imundície -, e a cada vez é como se nunca tivesse feito aquilo antes. No fim do primeiro dia, você se sente constrangido, levemente sujo; no segundo, nojentamente imundo; no terceiro, está se lixando; no quarto, já esqueceu como é não estar daquele jeito. A fome também segue um padrão definido. Na primeira noite, está faminto e não vê a hora de comer seu macarrão; na segunda, está com fome, mas gostaria que não fosse macarrão; na terceira, não quer macarrão, mas sabe que é melhor comer alguma coisa; na quarta, não tem nenhum apetite mas come, simplesmente porque é o que se faz naquela hora do dia.
O relato de Uma Caminhada na Floresta não se restringe ao humor irônico. Em grande parte do texto o autor fala sobre a história da Trilha dos Apalaches, a fauna e flora da região, a situação das reservas ecológicas norte-americanas e outros assuntos que podem auxiliar os insensatos inocentes a percorrerem a trilha - segundo consta, entre 300 a 400 mil pessoas percorrem-na anualmente.
Vale dizer que, no meio do caminho, após se perderem na floresta, Bill e Katz se olham mutuamente e dizem algo como: Vamos para a casa, não somos mais crianças para fazer essas coisas...
Uma Caminhada na Floresta de Bill Bryson, Editora Companhia das Letrinhas, tradução de Pedro Maia Soares, 282 páginas, R$ 27,00.No livro Uma Caminhada na Floresta Bill Bryson faz um humorado relato de sua caminhada pelos Apalaches, uma fracassada aventura selvagem
ReproduçãoBill Bryson escreveu Uma Caminhada na Floresta: aventura compartilhada por dois personagens





