Hábito de leitura é um bom 'vício'
Chiara Papali
De Londrina
Especial para Folha2
Não há muito o que se comemorar, hoje, Dia Mundial do Livro o brasileiro lê pouco ou quase nada, apenas 1% do que as editoras publicam é consumido por bibliotecas e o preço do livro é inacessível para a maioria da população. O índice de leitura do brasileiro é de menos de um livro por habitante/ano, e este índice só aumenta 2,5 livros por habitante/ano se considerarmos o consumo de livros didáticos. Os dados são de Raul Wasserman, presidente da Câmara Brasileira do Livro e coordenador da 16ª Bienal Internacional do livro, que acontece de 28 de abril a 7 de maio, em São Paulo.
O hábito de leitura tem que ser criado, plantado como uma semente em crianças, para formar o futuro leitor. E esta função, de acordo com a professora de literatura infantil do curso de letras da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Neuza Ceciliato de Carvalho, cabe à família e à escola. A família tem delegado esta função para a escola, mas o estímulo pela leitura tem que começar em casa, com os pais contando histórias para as crianças dormirem. O hábito de ler tem que ser considerado um bem, cobra.
Ler é um vício que se pega quando criança, ou então nunca mais, fala o escritor e jornalista Wilson Martins. Ele vem de uma família de gente que lê. Em média, devora um livro por dia. Eu costumo ler deitado, antes de dormir, umas 100 páginas. Por isso, tenho essa média de um livro por dia, afinal, não são todos os livros que têm 500 páginas, brinca. O escritor não acredita que o preço do livro seja um problema. Quem reclama dos preços são as mesmas pessoas que consomem CDs e vídeos sem reclamar do valor destes produtos. O interesse em comprar livros é que é pouco, diz.
Neuza Ceciliato, professora da UEL, explica que a leitura é trabalhosa, requer reclusão e concentração. Para o jovem de hoje é difícil ter este momento de introspecção. A TV e a Internet trazem um mundo de ficção e fantasia fáceis de serem assimilados, que não demandam esforço. O professor e diretor da Casa de Cultura da UEL, Alcides Carvalho, concorda: Através de imagens não há o processo de criação interna que o livro proporciona, diz ele, que considera a leitura um bom vício.
Para o escritor Domingos Pellegrini, a leitura sempre foi uma diversão, nunca uma obrigação. Ele conta que começou a ler O Cruzeiro, e depois Manchete, pilhas e pilhas de revistas que sua família tinha em casa. Por conta disso, aos nove anos de idade começou a frequentar bibliotecas e aos 11, começou a escrever. Na escola, eu lia muito mais do que os professores pediam.
Pellegrini se considera um viciado em leitura além de três jornais diários e revistas, está sempre lendo pelo menos três livros, que ficam na sala, no banheiro e na cama. Seu preferido, e que levaria para uma ilha deserta, é Tristes Trópicos, de Claude Levi-Strauss.
Coincidentemente, o jornalista Estélio Feldman, editorialista da Folha, cita Incidente em Antares, como um de seus livros preferidos. Frequentador assíduo de bibliotecas desde os sete anos, o jornalista tem um hábito interessante: seus livros não ficam parados na estante, ele dá todos os exemplares que ganha, para que outras pessoas leiam.
Feldman só mantém em casa seus livros preferidos - Servidão Humana, de William Somerset Maugham, Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques e um clássico da literatura brasileira Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antonio de Almeida. Ele conta que sua maior alegria foi quando ouviu do filho que ler é mais divertido que ver televisão.
Com o rápido crescimento da Internet, muitos intelectuais chegaram a dizer que não existiriam mais livros e jornais impressos. Alcides Carvalho, diretor da Casa de Cultura da UEL, conta que foi um destes que afirmaram que a era de Gutemberg já era. Hoje reconsidera essa posição. Acho que houve um exagero da minha parte - o livro vai existir sempre. O computador não substitui o livro, até por uma questão física - o computador é muito cansativo, diz.Jornalistas, escritores e professores contam como família e escola influenciaram para se tornarem vorazes leitores
Agência EstadoO escritor e crítico Wilson Martins devora um livro por dia: Antes de dormir costumo ler umas cem páginas





