Francelino França
De Londrina
São Paulo recebe hoje os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Jorge Sampaio, de Portugal, para a abertura oficial e festiva da mais ambiciosa exposição de artes plásticas já realizada no Brasil, a Mostra do Redescobrimento / Brasil + 500 Anos. Apenas de Portugal, aportam na paulicéia visual cerca de 100 jornalistas. A relevância cultural do evento não se restringe somente à presença de estrelas políticas e artísticas. A itinerância em solo pátrio e nos principais museus da Europa e Estados Unidos mostrará a diversidade das artes visuais produzidas por aqui, inserindo de maneira mais sólida o País na era da globalização.
O museu Solomon R. Guggenheim, de Nova York, usará todo o seu espaço físico para abrigar, em outubro de 2001, a Mostra do Redescobrimento. A repercussão internacional, provavelmente, deve influir na visão estereotipada da opinião pública estrangeira sobre o Brasil.
Um dos pontos a ressaltar é que os 40 milhões do custo total do megaevento foram patrocinados pela iniciativa privada, sendo 30% com base nas Leis de Incentivo à Cultura e os outros 70% bancados pelas empresas. Basicamente, cada empresa patrocinadora adotou um módulo.
Os idealizadores pretendem com essa retrospectiva de 15 séculos de arte uma busca de identidade, revisitando as origens, numa espécie de retroalimentação. Os 13 módulos congregam cerca de 15 mil peças, num autêntico caldeirão de diversidade das idades culturais do País. A criação de linguagens simbólicas complexas permeiam facções da arte pouco valorizadas em outros eventos de artes plásticas, como as Imagens do Inconsciente e Arte Popular.
Uma das características da Mostra do Redescobrimento / Brasil + 500 anos se revela no caráter sensorial. Por uma decisão política, para fazer uma conexão entre espaço e obra de arte foram contratados renomados cenógrafos. É arte dentro da arte, dentro da arte... ‘‘É preciso conquistar o olhar do primeiro visitante’’, advoga Edemar Cid Ferreira, presidente da Associação Brasil 500 anos, responsável pelo evento. A cenografia tem o intuito de ‘‘descansar’’ os olhos do público da overdose visual.
A diretora teatral Bia Lessa idealizou a cenografia para o Módulo Barroco. Bia não economizou conceitos para justificar a inclusão de dezenas de troncos de pinus; 200 mil flores de papel crepom roxas e amarelas (confeccionadas por internos do Presídio do Carandiru), e até uma foto da Nasa, mostrando o ponto mais distante do Universo. Tudo isso e mais um pouco para enaltecer as 380 obras barrocas produzidas, basicamente, no período colonial.
A incursão do público numa floresta ‘‘fake’’ faz com que o diálogo com a obra de arte seja mais efetivo. Bia pretendeu colocar algumas imagens de santos distribuídas nessa floresta, para reproduzir a ‘‘esquisitice’’ das imagens que saíram de catedrais suntuosas de Portugal e chegaram na mata tropical da colônia. ‘‘Quis fazer uma espécie de tapete para o espectador caminhar e, assim, conhecer o Brasil’’, explicou Bia Lessa à Folha2. Para ela, até as flores feitas no Carandiru trazem uma carga dramática muito grande.
Ezio Frigerio foi encarregado de fazer o cenário do módulo ‘‘O Olhar Distante’’ e criou uma ‘‘floresta’’ repleta de árvores brancas. Outro cenógrafo convidado, Paulo Pederneiras, realizou um projeto topográfico no Módulo Arqueologia. Na oca construída por Oscar Niemeyer no Ibirapuera, ele incidiu uma iluminação somente nas peças da Mostra. Nas paredes brancas serão exibidos ininterruptamente filmes com imagens rupestres pouco conhecidas. ‘‘Procurei tirar partido das formas desse ambiente sofisticado’’, afirma.
Pederneiras assina também a cenografia do Módulo Artes Indígenas. Numa das seções em que se concentram máscaras indígenas, ele escolheu uma solução interessante. Como os índios não fixam o olhar diretamente nas máscaras, Pederneiras colocou uma tela branca diante delas para que o público também não possa olhá-las diretamente. Uma máscara do século XVII, trazida de Roma, de cunho religioso muito importante, só poderia ser vista por índios iniciados nos rituais religiosos. Mulheres e crianças ficavam proibidas de conhecer a máscara.
O cenógrafo alocou a peça dentro de uma caixa gigante, concedendo apenas uma fresta de abertura. Dentro, a máscara num contraluz. Pouco se vê do símbolo indígena. Se apenas os iniciados podiam ver o ícone, por que os brancos teriam essa permissão para ver? Na concepção do cenógrafo, esse respeito com as tradições permite um maior entendimento do significado daquele ícone brasileiro.Cenógrafos criaram ambientes para a Mostra do Redescobrimento que abre hoje em São Paulo. Tudo para cativar o olhar dos visitantes
Agência Estado e DivulgaçãoA seção ‘‘O Olhar Distante’’ tem cenário criado por Ezio Frigerio que optou por uma ‘‘floresta’’ branca onde se inserem obras de Joseph Leon Righini (no detalhe) e outros estrangeiros

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