HÁ MÚSICA INTELIGENTE NO REINO DO FREE JAZZ
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de outubro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
O mix de gêneros continua marcando o Free Jazz. Em sua 15ª edição, o festival mantém o ecletismo dos últimos anos reunindo baluartes do improviso instrumental, representantes do rock e estrelas do pop eletrônico.
Os shows acontecem esta semana no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro de hoje a sábado e no Jockey Club de São Paulo de amanhã a domingo. Entre as principais atrações figuram nomes como o baterista Max Roach, a banda Sonic Youth, o contrabaixista Ray Brown, o duo Leftfield e o grupo Art Ensemble of Chicago.
Os ingressos custam entre R$ 40,00 e R$ 60,00. A MTV, o canal Multishow e o portal Terra anunciam a transmissão ao vivo do evento. A edição segue a estrutura e o esquema de programação lançado há dois anos: três palcos, cada um deles reservado a um tipo de corrente musical: Main Stage para as grandes estrelas, New Directions para a ousadia e Club para espetáculos de câmara.
Desta vez, a maior curiosidade fica por conta da participação de quatro filhos de músicos famosos: Ravi Coltrane (herdeiro de sangue de John Coltrane), Sean Lennon (John Lennon), Femi Kuti (Fela Kuti) e Moreno Veloso (Caetano Veloso). A turma pop detém a primazia no elenco, talvez mais ainda que nas edições anteriores, o que é sempre motivo de irritação para puristas e fator de comemoração para o público jovem.
Na verdade, a incorporação de ritmos alienígenas à música surgida em New Orleans vem de longe, datando de 1969 com o surgimento do jazz fusion que misturava jazz com funk. No Brasil, a aderência do Free Jazz ao modelo caiu do céu para a garotada, especialmente depois da extinção do festival Hollywood Rock.
A alegria, no entanto, pode estar com os dias contados já que o Free Jazz está a um passo de sair da agenda anual de espetáculos. Motivo: a lei que está em tramitação no Congresso proibindo a publicidade de cigarros em todo o território nacional. A medida passou pela Câmara Federal e está sendo discutida no Senado.
Se for aprovada, poderá melar já a edição do próximo ano do festival, que é patrocinado pelo fabricante de cigarros Souza Cruz. Enquanto senadores e lobbies da indústria do tabaco se engalfinham, o público se prepara para receber a banda novaiorquina Sonic Youth, expoente máximo do rock alternativo mundial.
O grupo, que lançou há poucos meses o álbum NYC Ghost & Flowers, comemora no próximo ano duas décadas de uma trajetória invejável, arredia aos apelos mercadológicos e repleta de experimentalismos com as guitarras. O Sonic é formado por Lee Ranaldo (guitarra), Thurson Moore (guitarra e vocais), sua mulher Kim Gordon (baixo e vocais) e Steve Shelley (bateria).
Além das turnês e das próprias gravações, eles comandam o selo Smells Like Records pelo qual lançam bandas novas e desconhecidas do público como Two Dollar Guitar, Nod, Scarnella, Lee Hazlewood e Christina Rosenvinge. O último lançamento do selo é o SYR5, um trio formado pela própria Kim Gordon, e mais o baterista Ikue Mori e o DJ Olive.
No projeto, Kim toca guitarra, seu primeiro instrumento dentro da formação mais famosa. Sonic teve vários shows anunciados e cancelados no Brasil ao longo dessa década. Só para dar uma idéia da ansiedade, a espera fez com que uma excursão de três ônibus lotados fosse organizada em Londrina para levar os fãs ao Free Jazz.
Mas o público de rock não é o único que se deu bem este ano. O evento abriu espaço generoso também para a comunidade clubber com os shows de Leftfield, Moloko e Talvin Singh. O chamariz é o duo eletrônico inglês Leftfield, que há três meses lançou o álbum Rhythm & Stealth. Neil Barnes e Paul Daley fundem techno, dub e ritmos da black music.
Estão juntos há dez anos, mas só estouraram em 95 com o álbum Leftism, que faturou o Prêmio Mercury Prize como o melhor disco do ano. No Festival, prometem abalar as paredes do MAM e do Jockey Club. Da ala jazzística propriamente dita, os destaques deste ano são os mestres Max Roach (baterista lenda do bebop que tocou com Miles Davis, Dizzy Gillespie, Charles Mingus, Thelonious Monk, entre outros) e o contrabaixista Ray Brown (Dizzy Gillespie, Oscar Peterson e Milt Jackson), além do grupo Art Ensemble of Chicago (que fez uma combinação paradoxal entre modernidade vanguardista e tradição percussiva africana).
Sonic Youth abre o evento tocando hoje no Rio e amanhã em São Paulo, antecedido por Sean Lennon, no palco principal Main Stage. Max Roach e Hamilton de Holanda se apresentam no palco Club, enquanto Irvin Mayfield e Greg Osby ocupam o palco New Directions. A segunda noite, é a vez dos eletrônicos Leftfield e Moloko (Main Stage); Ray Brown e os pianistas Chuchu Valdés e João Donato (Club); e Manu Chao e Moreno Veloso (New Directions).
A noite de encerramento ficou reservada para Femi Kuti e o soulman DAngelo (Main Stage); Ravi Coltrane e Arte Ensemble of Chicago (Club); e mais Talvin Singh, Marcos Suzano e Jay Jay Johanson (New Directions). O Free Jazz corrompeu o nome, mas continua se preservando do pop vulgar.


