Para os implacáveis de plantão, nunca foi tão fácil faturar. Mas para milhões de devotos seguidores do culto a um dos ícones da história cinematográfica da ficção-científica, o momento é de suprema glória: está de volta, agora com imagens recauchutadas pelas precisas filigranas da computação gráfica e trilha sonora reprocessada, a saga espacial ‘‘Guerra nas Estrelas’’, criada por George Lucas há duas décadas. O que vai estar a partir de hoje nas salas de todo o País é a primeira parte da trilogia (veja a programação de cinema na página 3). As outras duas, ‘‘O Império Contra-Ataca’’ e ‘‘O Retorno de Jedi’’, chegam a partir de abril. Relançada nos Estados Unidos com pompas e fanfarras somente reservadas a inéditos fora de série, ‘‘Star Wars - Special Edition’’ não demorou a justificar a expectativa da Fox. Logo nos primeiros dias de exibição, iniciada em 31 de janeiro, o filme já estava liderando o ranking das maiores bilheterias, desbancando favoritos como ‘‘Jerry Maguire’’. E para euforia do estúdio, do clã Lucas e de estatísticos ociosos, no cômputo geral o filme acaba de reassumir o posto de recordista absoluto de renda em todos os tempos, desbancando o mesmo ‘‘E.T.’’ que em 81 havia empurrado ‘‘Guerra nas Estrelas’’ para o segundo lugar.
O velho e o novo A favor de George Lucas, e contra quem o acusa de ter feito estrategicamente apenas um grande estardalhaço (ou um trailer requentado) preparando terreno para o lançamento de uma nova trilogia a partir de 99, existe a revelação ao jornal ‘‘Rolling Stone’’ em junho de 1977, um mês após o lançamento de ‘‘Guerra nas Estrelas’’ em apenas 35 salas dos Estados Unidos : ‘‘Nada me daria maior satisfação do que refazer, com um pouco mais de tempo e dinheiro, os efeitos especiais do filme’’. E tempo e dinheiro ele teve. Foram 20 anos e 10 milhões de dólares para materializar um desejo e acessar uma prodigiosa escala de conquistas tecnológicas, muitas criadas, desenvolvidas e aperfeiçoadas pelo filão pragmático do próprio Lucas, que deu um tempo a seus dotes artísticos para administrar a Industrial Light and Magic.
DivulgaçãoO milagre da computação: seres criados do nada
Como poucos, o diretor soube juntar o agradável ao útil. Além de satisfazer suas intenções originais, o simples anúncio da reedição de ‘‘Guerra nas Estrelas’’ & derivados trouxe formidável movimentação financeira a Lucasfilm. Além do surpreendente e espetacular box-office, há a renovação de licenças de uma infinidade de produtos que estavam fora de comercialização. E a cúpula da Lucasfilm revelou há pouco um acordo promocional com a Pepsi-Cola, que está garantindo 150 milhões de dólares para a campanha de lançamento desta reedição especial e para o primeiro exemplar da próxima trilogia, com estréia mundial prevista para 1999.
Somente observadores mais abnegados ou decididamente starmaníacos vão notar os quatro minutos e meio do novo material acrescentado ao filme. Lucas afirma que cerca de 100 efeitos foram ou inteiramente refeitos ou realçados com a utilização da parafernália digital da ILM. Entre os mais significativos acréscimos está a sequência em que o monstrengo-vilão Jabba é confrontado com o aventureiro Han Solo (Harrison Ford, em estágio pré-Indiana Jones) no espaçoporto. Ao contrário da versão animatrônica de Jabba desenhada para ‘‘O Retorno de Jedi’’, o novo Jabba é uma completa criação CGI - para os íntimos, ‘‘computer generated imagery’’, o que garante quase ilimitada liberdade de movimentos para o personagem. A imagem computadorizada contracena com Harrison Ford no lugar do antigo Jabba de 77, que aparecia palpável em cena com um ator dentro da máscara. Outro momento crucial para Lucas foi a famosa sequência da Cantina, que também recebeu maquiagem especial e novos e terríveis fregueses.‘‘Tinhamos apenas 20 mil dólares para a sequência, fizemos apenas a metade do que queríamos. Eu realmente tinha planejado uma galeria de monstros chocantes, horrorosos, muito loucos mesmo. Fizemos o que foi possível’’, disse o diretor há 20 anos, na mesma entrevista à Rolling Stone.
Aqui e ali, Lucas foi acrescentando detalhes digitalizados, atualizando o material. Em vários momentos o espectador dos anos 70, atento às mudanças, vai encontrar as novas pistas plantadas. Como, por exemplo, um maior número de espaçonaves perseguindo a Millennium Falcon à saída do espaçoporto; ou como mais e variadas criaturas como pano de fundo para a chegada de Luke Skywalker e Obi-Wan-Kenobi ao mesmo espaçoporto, inclusive alguns Jawas sendo atirados de cima de um Ronto (espécie de dinossauro galático). Ou ainda, entre muitas outras pequenas inserções, a batalha final, com mais espaçonaves, mais explosões e estrepolias a laser, agora passadas a limpo pela digitalização de ponta.
Embora premiado em 77 com o Oscar da categoria, o som de ‘‘Guerra nas Estrelas’’ também passou por uma natural reciclagem, em função das conquistas eletrônicas. A mais recente tecnologia foi posta a serviço da remasterização digitalizada. Os fãs devem esperar surpresas, como a voz de novas criaturas e o som de novos veículos. Obviamente destacados em salas com reprodução Dolby Surround de última geração, minoria em território nacional.
De volta para o passado Para quem está chegando agora, o convite à curtição deve vir acompanhado de algumas apresentações. Na vastidão territorial de ‘‘Guerra nas Estrelas’’, e à velocidade da luz, a trama é secundária e se submete aos personagens, estes sim, os elementos essenciais da aventura. Pelo lado da Força se alistam o jovem Luke Skywalker (Mark Hammill), o aventureiro Han Sollo (Harrison Ford) e seu peludo navegador Chewbacca, a princesa Leia Organa (Carrie Fisher), os andróides R2D2 e C3PO e o sábio e misterioso Obi-Wan Kenobi (Alec Guinness), o Mestre Jedi. Em oposição, as forças do Mal e das Trevas, o Império comandado pelo Grand Moff Tarkin (Peter Cushing) e seu braço direito, Lord Darth Vader (voz de James Earl Jones, processada).
Curiosamente, há 20 anos Lucas deu a partida na saga contando uma história que teria sido iniciada muito tempo atrás. Como se a trilogia ‘‘Guerra nas Estrelas’’ fosse uma sequela. Agora finalmente se anuncia o que os americanos chamam de ‘‘prequel’’, rigorosamente o neologismo ‘‘prequela’’: já está em ritmo de pré-produção - filmagens a partir de setembro - um novo capítulo da novela espacial. Uma das prováveis fontes é o romance ‘‘Heir to the Empire’’, que retoma as aventuras de Luke Skywalker & cia. O resto fica por conta das fantasias de Lucas, que parece ter recuperado o prazer de comandar sua tripulação rumo às mais distantes esquinas do Universo.

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