Vivian de Albuquerque
Louco, criminoso e extremamente criativo, o sergipano Arthur Bispo do Rosário morreu indigente. Como herança, deixou trabalhos que são hoje disputados por estudiosos
Preto, solteiro, de naturalidade desconhecida, sem parentes, sem profissão, alfabetizado, com antecedentes criminais e internação feita no dia 25 de janeiro de 1939. A ficha, em papel já amarelado pelo tempo, pertence aos arquivos da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. O paciente, com nome extremamente religioso, é o sergipano Arthur Bispo do Rosário. Tudo seria perfeitamente normal para um internamento num hospício, se o personagem não se tratasse de um dos maiores ícones da arte já feita em manicômios de todo o Brasil.
Hoje, dia 5 de julho de 1999, faz dez anos que o mundo viu morrer um até então desconhecido, e sem valor, artista plástico, que usava o que lhe caísse nas mãos para fazer seus trabalhos. Trabalhos que durante muitos anos depois passaram a ser disputados por quem estudava a arte como uma terapia ou uma expressão da loucura. E a maior surpresa, para quem teve a oportunidade de conferir a exposição, é que eles acabaram vindo parar também aqui em Curitiba.
No ano de 1990, a Fundação Cultural de Curitiba decidiu optar por uma exposição mais profunda do que as que vinham sendo feitas até o momento. E o investimento foi feito em uma grande mostra, que reuniu desde psicanalistas e psiquiatras até trabalhos dos mais variados artistas, abordando o tema da loucura. Entre eles, a arte intrigante do ‘‘Bispo dos manicômios’’.
‘‘A mostra ficou aqui de setembro a outubro daquele ano’’, lembra a atual secretária estadual de Cultura, e presidente da Fundação na época, Lúcia Camargo. ‘‘E fizemos questão de que ela ocupasse todo o andar do antigo Grande Atelier do Centro de Criatividade. Para isso, tivémos que restaurar várias das obras, que estavam em mau estado. Entre elas, a própria cama do Bispo e algumas roupas que estavam descosturadas.’’
Para dar o clima, todas as peças foram instaladas com uma luz especial. Os mantos colocados em manequins e todo o quarto do hospício recriado, passando um pouco da realidade vivida pelo artista em 50 anos de internação em asilos.
‘‘Vieram muitas coisas e foi a primeira exposição itinerante do artista, conta Lúcia. ‘‘Na época, toda a imprensa do Paraná se empenhou em dar uma boa cobertura. E o resultado foi uma visitação muito grande, onde não havia quem não saísse maravilhado com os trabalhos. Acho que valeria à pena até repetí-la aqui’’, comenta.

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