Joel Gehlen
De Curitiba
Especial para Folha2
Márcio ScatrutCena de Ricardo 3º: espetáculo enxuto com cenário funcionalOutono é senhor da cena em Curitiba. Na noite fria e úmida que abriga esta 9ª edição do Festival de Teatro o sábado de espetáculos teve uma boa apresentação de ‘‘Ricardo 3º’’, com o grupo mineiro Odeon Companhia Teatral.
Fazer Shakespeare é sempre complicado, pela exigência de dotes específicos dos atores e de uma leitura que dê uma identidade própria à montagem. Se os mineiros não foram cem por cento no primeiro item, convenceram pelas soluções cênicas. O resultado é um espetáculo enxuto, com um cenário funcional, perfeitamente entrosado com a bela iluminação e figurinos, dando um banho de atualidade à peça.
O formato da montagem do Odeon permite ver, de forma cristalina, o quanto o texto de Shakespeare é atual, e como o modo do homem atingir o poder - político ou financeiro - continua o mesmo. Trocando o Reino da Inglaterra pela República das Alagoas, e os condes e duques por deputados e senadores, o resumo da ópera torna-se ainda mais familiar. Mas a familiaridade não se restringe ao tabuleiro político, diz respeito a sentimentos demasiadamente humanos e frequentes nestes dias que correm.
Ambição, trama, traição, mentira, perfídia, punhaladas e mortes no palco frio do Teatro Guaíra. Pelo Reino da Inglaterra, Ricardo deseja a morte do rei seu irmão, mata outro irmão e o sobrinho, prende, enlouquece e trai, até assumir a coroa, que, naturalmente pouco tempo permanece em sua cabeça. O melhor ator em cena, Jorge Emil, no papel de Ricardo, compensa o desfalque de muitos dos colegas. Em sua boca, as palavras de Shakespeare vão dando vida à torpe mancomunação. Dá corpo às deformações do personagem corcunda, manco e maneta, sua cobiça em voz alta conta com uma silenciosa cumplicidade do público, cada um com seu punhal no mais íntimo dos tribunais.
Na sala ao lado, outro espetáculo confirmava, a seu modo, a torpeza humana. ‘‘Crimes Delicados’’ - com Nicete Bruno, Paulo Goulart e Bárbara Bruno Goulart e direção do ‘‘bruxo’’ Antônio Abujamra - retrata a banalização da morte. Transformada em espetáculo campeão de público pela imprensa, a morte vira fashion, produto da moda, no texto de José Antônio de Souza. A própria montagem é uma boa prova de como o assunto pode servir ao mercado. Olha aí como matar tem lá seu lado popular, sensacional, elegante. O delicado nesse crime é que ele não se restringe a matar, há insofismáveis sutilezas para todos os gostos e gozos. Ao final, a frase canastrona de Shakespeare a justificar a comédia de erros que acabam de encenar: que o público complete com sua imaginação as falhas de tanta imperfeição.
Há algo mais que frio na noite de Curitiba: mais que nunca, descobrimo-nos shakespeareanos até a medula.

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