Há 30 anos nascia ''O Pasquim''
HÁ 30 ANOS NASCIA
O PASQUIM
Em 1969 era fundado o semanário carioca que revolucionou a imprensa brasileira com humor e deboche
Jota
Especial para a Folha2
Há trinta anos chegava às bancas um jornal tablóide que iria mexer bastante com o Brasil. O escracho começava pelo nome - O Pasquim -, um pejorativo usado para designar jornais de má qualidade. Criado de modo despretensioso por um grupo de jornalistas e cartunistas do Rio de Janeiro, o jornal desmentiria em poucas horas os que achavam uma loucura a tiragem de 14 mil exemplares da primeira edição. Na noite daquela quinta-feira, 26 de junho de 1969, tiveram que rodar mais 14 mil porque a edição havia se esgotado nas bancas.
Em menos de três meses o Pasquim chegava a 200 mil exemplares vendidos por semana. Sem uma grande empresa editorial por trás - aliás, sem nem mesmo espaço para a redação do jornal, que começou em uma sala emprestada pela distribuidora - e apoiado apenas no talento de seus editores, tornou-se rapidamente um sucesso editorial. O grupo fundador do jornal - conhecido depois nacionalmente como a patota do Pasquim - era composto por Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Claudius Ceccon, Ziraldo, Millôr e Carlos Prosperi, autor do projeto gráfico. Logo depois viriam os cartunistas Fortuna e Henfil e os jornalistas Ivan Lessa, Sérgio Augusto e Paulo Francis, que escrevia no Pasquim algo parecido com a coluna que faria depois na imprensa diária. Newton Carlos distribuía bordoadas nas ditaduras latino-americanas. Luis Carlos Maciel trazia as últimas do underground e das filosofias alternativas. Mais colaboradores se juntariam à patota do Pasquim, incluindo dois famososo exilados, Chico Buarque e Caetano Veloso, que mandavam seus textos, respectivamente, de Roma e de Londres. Até o presidente Fernando Henrique Cardoso publicou no jornal, certamente um dos textos que pretende que esqueçam. Foi desencavado e republicado no primeiro número da revista Bundas, editada por Ziraldo e Jaguar, e por coincidência lançada no mês do aniversário de O Pasquim.
O Pasquim nasceu de A Carapuça, jornal que o cartunista Jaguar iria fazer com Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Morto Sérgio Porto, Jaguar se juntou a outros jornalistas para fazer O Pasquim, nome de sua sugestão. Como a grande imprensa iria mesmo criticá-los chamando o jornal de pasquim, justificava o cartunista, o melhor era logo dar-lhe esse nome. O formato do jornal também surgiu de uma pesquisa com vários profissionais do ramo. Como 90% dos consultados foram contra o modelo tablóide, esse foi o escolhido. Essa incorporação do humor na vida e nos procedimentos do jornal foi uma marca de O Pasquim. Ficaram famosas as histórias do uísque correndo solto e a mulherada andando de biquíni pela redação.
Na biografia do cartunista Henfil, escrita por Dênis de Moraes, há um capítulo detalhado sobre o início de O Pasquim onde a jornalista Marta Alencar, secretária de redação no primeiro ano do jornal, conta o que era trabalhar com pessoas tão singulares: O Pasquim era uma fogueira de vaidades. Os fechamentos eram engraçadíssimos, porque implicavam uma experiência de fechar os territórios: duas páginas do Millôr, duas do Ziraldo, duas do Tarso, duas do Jaguar, e você não podia interferir. O cartunista Jaguar conta que as pautas do jornal geralmente eram rascunhadas nas mesas dos botecos. Essa improvisação genial era ressaltada na edição final; eles faziam questão de espalhar o folclore de que o jornal era produto de uma turma de boas-vidas.
Essa fama foi uma das razões do sucesso. O Brasil carecia de uma válvula de escape em meio à repressão da ditadura militar e ao provincianismo da vida cotidiana. A imprensa brasileira era muito formal e parte dela já estava sob censura - decretada pelo AI-5 a 13 de dezembro de 1968. O Pasquim penetrou através de um viés inesperado para os militares: o do humor, do achincalhe sem piedade da cara amarrada do poder. Os generais estavam preparados para tudo, menos para os golpes de uma esquerda festiva e debochada. E a verdade é que também para a esquerda o estilo era inesperado - e também desaprovado .
O primeiro número já veio com a famosa entrevista, uma das bases da matéria-prima que fez o sucesso de O Pasquim. Havia também a seção Dicas, onde os colaboradores escreviam sobre o que quisessem, desde a indicação de um bar até elucubrações filosóficas sobre a vida. E os cartuns eram espalhados pelo jornal em espaços generosos. Os textos eram escritos conforme o estilo de cada colaborador, com uma liberdade de linguagem então inexistente na imprensa. Esse estilo acabou revolucionando a linguagem da imprensa brasileira que, aos poucos, foi incorporando vários achados de O Pasquim e se livrando da casaca formal que tornava sisudos os jornais brasileiros.
Nas entrevistas o uísque corria solto e o entrevistado relaxava. As entrevistas de O Pasquim serviam de divã psicanalítico para as personalidades brasileiras que ali falavam de coisas que jamais se atreveriam em outras publicações. O jornal era um território livre. As declarações eram publicadas do jeito que saiam nas sessões sempre frequentadas por pelo menos meia dúzias de entrevistadores bem provocadores. Isso criou um novo modo de se fazer entrevistas no Brasil.
A entrevista com a atriz Leila Diniz é a mais famosa de todas. Saiu publicada repleta de asteriscos, idéia de Tarso de Castro para encobrir os palavrões da desbocada atriz e driblar a censura. Leila Diniz era uma das musas do Pasquim, mulheres ousadas que passavam seu recado libertário pelo jornal e aproveitavam para posar para fotografias com pouca roupa. Não se esqueçam que a idéia dominante era a de que lugar de mulher é na cozinha e que fotos de mulheres nuas não podiam ser publicadas na imprensa. O regime tinha até regras bem estranhas para a questão. Seios de fora não podiam sair publicados, mas era permitido que as modelos posassem com camisetas molhadas. Então o Pasquim resolvia a questão molhando as camisetas apenas no ponto sobre os seios das mulheres.
Logo os generais descobriram que a oposição dessa esquerda festiva era tão perigosa quando a da esquerda armada que se insurgira contra o regime. O clima de descontração criado pelo jornal - que distribuía democraticamente para todo o País o modo de vida anárquico daquela turma da zona sul carioca - não combinava com os ares de caserna pretendidos pelos milicos para os brasileiros. No número 39 começou a censura-prévia ao jornal. O general Médici atacava com dureza as publicações e manifestações contrárias ao regime, à moral e aos bons costumes. Livros eram apreendidos, o cinema e o teatro sofriam censura.
Em novembro de 1970 integrantes do jornal - Tarso de Castro, Ziraldo, Francis, Sérgio Cabral, Maciel, Fortuna, Jaguar, o fotógrafo Paulo Garcez e o funcionário Haroldo - foram presos, em um episódio que sempre foi tratado com o maior bom humor por todos. No jornal, sob censura, a prisão era mencionada como a gripe do Pasquim. Mas teve lances dramáticos como a tentativa de um grupo do Doi-Codi (um braço mais radical da repressão política, responsável, entre outras barbaridades, pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog) de levá-los à força da prisão onde estavam. O sequestro foi impedido por um tenente do exército armado de metralhadora.
Mesmo na convivência com a censura a patota do Pasquim não perdeu o bom humor. Havia as histórias do general censor que recebia o material para exame na praia das mãos de uma secretária do jornal que ia de biquíni para amaciar a censura; tinha também a censora que bebia muito e para quem a redação sempre providenciava um bom uísque para amenizar a convivência. Mas, tirando a graça das piadas, a censura fez o jornal acumular sérios prejuízos. Para uma edição nas bancas era preciso produzir o equivalente a três edições inteiras. E mesmo depois de passar pelo censor o jornal corria o risco de ser apreendido nas bancas - o que aconteceu algumas vezes. Isso, aliado à má administração, que sempre foi uma marca do jornal, levou O Pasquim à ruína.
A censura terminou no número 300, em 1972 - tão misteriosamente como entrou, como escreveu Millôr Fernandes em editorial. O jornal foi apreendido nas bancas. Millôr estava na direção, em substituição a Tarso de Castro, a quem responsabilizava pelo desastre administrativo de O Pasquim por causa de seu estilo de vida gastador e sem compromissos. Da turma dos fundadores já tinham saído de cena Claudius, Sérgio Cabral e Fortuna. Os rompimentos - com várias versões, em que todo mundo tem razão - fazem parte da história do jornal. Com a apreensão, Millôr também saiu do jornal, alegando não saber trabalhar com autocensura.
Descaracterizado, sem encontrar seu espaço na abertura política conquistada pela sociedade brasileira, a publicação foi definhando. Teve até uma inusitada fase paulista, que faria a redação morrer de vergonha em seus bons tempos. O golpe de misericórdia foi a divisão partidária entre Jaguar e Ziraldo em 1982, quando da eleição para o governo do Rio de Janeiro. Bem ao estilo de O Pasquim os dois apostaram suas cotas. Com a eleição de Leonel Brizola, Jaguar ficou com O Pasquim e suas dívidas, que na época acumulavam em cerca de 200 mil dólares. O jornal sobreviveu aos trancos e barrancos até 1992 com o cartunista Jaguar como o remanescente da turma fundadora do jornal que, com humor e sem pretensão, revolucionou a linguagem jornalística no País.





